Existe uma Buenos Aires a apenas 79 quilômetros do Recife. Localizada na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a cidade de cerca de 13 mil habitantes transformou a coincidência do nome em uma relação afetiva com a Argentina, visível no futebol, nas referências ao Boca Juniors, na idolatria por Lionel Messi e em manifestações culturais que convivem naturalmente com tradições pernambucanas.

É desse encontro entre sonho, identidade e imaginário latino-americano que nasce BuenosAires, novo documentário da cineasta Tuca Siqueira. Exibido na Mostra de Cinema de Gostoso e ambientado durante a Copa do Mundo de 2022, o longa acompanha personagens que enxergam na cidade uma forma particular de pertencimento, construída muito mais pela imaginação do que por vínculos concretos com o país vizinho.

Em entrevista ao Cine Set, Tuca Siqueira falou sobre a descoberta da cidade, a receptividade dos moradores às filmagens, a convivência entre referências argentinas e pernambucanas e o que considera o tema central do filme: a capacidade de sonhar e transformar desejos em realidade, mesmo diante das dificuldades do cotidiano.

Cine Set – Gostaria de saber do impacto de vocês no dia a dia da cidade, afinal, é um local de 13 mil habitantes e vocês falam com muita gente, estão em todos os lugares. Como foi a recepção e de que forma isso marcou a equipe?

Tuca Siqueira – Nossa equipe era muito pequena. Durante a Copa do Mundo de 2022, tivemos a maior estrutura de toda a produção: dois fotógrafos, um técnico de som, uma produtora, uma assistente de direção e eu. Ainda assim, era uma equipe enxuta. Por causa disso, todo mundo se ajudava o tempo inteiro. Havia uma dinâmica muito colaborativa em que cada pessoa acabava assumindo diferentes funções quando necessário.

Além disso, eu já frequentava Buenos Aires havia bastante tempo. Na época das filmagens, já eram cerca de seis anos indo à cidade regularmente. Muitas vezes viajei sem equipe, outras apenas com um câmera e em algumas ocasiões eu mesma operava o equipamento. Acho que, de certa forma, as pessoas já estavam acostumadas com a minha presença por lá.

E encontramos um cenário muito acolhedor. Havia uma disposição genuína para colaborar com o filme. Frequentemente apareciam pessoas oferecendo ajuda e dizendo: “Se vocês precisarem de alguma coisa, estou por aqui”. Existia também uma alegria pelo simples fato de alguém ter se interessado pela cidade. Buenos Aires não é um lugar de passagem para outros municípios; quem vai até lá, geralmente vai porque realmente quer estar ali.

Cine Set – Como você descobriu a cidade? Tinha alguém, algum contato? Era o interesse pela cidade com esse nome?

Tuca Siqueira – Muita gente no Recife nem sabe que existe uma Buenos Aires em Pernambuco. Eu mesma conhecia apenas a capital argentina e só descobri essa cidade por meio de um livro de fotografias de José Ivan Rodrigues, que conheci por volta de 2014, quando surgiu a ideia do filme.

Sempre fui apaixonada pela América Latina e me intrigava essa distância que existe entre nós, muito por causa da língua. Por isso, fiquei curiosa ao descobrir uma cidade onde algumas pessoas buscavam uma aproximação afetiva com a capital portenha, apesar de todas as diferenças culturais.

Desde a primeira visita, fiquei impressionada com a capacidade que aquelas pessoas tinham de transformar sonhos em realidade. O exemplo mais marcante era o de um ex-jogador apaixonado pelo Boca Juniors que fundou um clube inspirado no time argentino, com direito até a uma estátua do Maradona. Mais do que qualquer referência à Argentina, o que me fascinou foi justamente essa disposição de sonhar e concretizar esses sonhos.

Cine Set – Todo este imaginário argentino do Caminito, empanadas, do futebol convive com elementos tipicamente pernambucanos como o Maracatu e as fanfarras. Qual seria o segredo que você observa desta convivência tão fluida entre universos aparentemente tão distantes?

Tuca Siqueira – Quando pensamos em roteiro, seja de documentário ou ficção, quase sempre buscamos um conflito para sustentar a narrativa. E, de certa forma, ele existe aqui: uma parte da população de Buenos Aires admira a Argentina e quer se aproximar da cultura portenha, mas sem falar espanhol ou adotar completamente seus costumes. Eles querem se aproximar, mas não querem ser argentinos.

O curioso é que aquilo que parece um conflito para quem observa de fora não é um conflito para quem vive ali. Tudo convive de forma muito natural. Não existe crise nem necessidade de escolher um lado. Acho que a leveza do filme vem justamente dessa convivência harmoniosa entre elementos aparentemente contraditórios.

Isso aparece em situações que retratamos no documentário. Um padeiro me contou que tentou vender empanadas, mas ninguém se interessou. No filme, vemos algo parecido: elas são oferecidas em um jogo de futebol, mas quase ninguém compra. O mesmo aconteceu com uma professora de espanhol, que me disse que apenas três pessoas se matricularam em suas aulas e nenhuma permaneceu por muito tempo.

No fim, o interesse dessas pessoas não está em reproduzir a cultura argentina de forma literal. A relação delas com a Argentina acontece em outro lugar: no imaginário, na admiração e no sonho.

Cine Set – Muito se fala que a Copa do Mundo já não empolga mais, a Seleção não desperta mais o mesmo interesse. O filme, entretanto, mostra uma outra relação com o torneio e a nossa própria Seleção. O que mais te chama atenção nesta relação de Buenos Aires com as grandes cidades brasileiras?

Tuca Siqueira – Buenos Aires é uma cidade muito apaixonada por futebol. Tanto que uma exibição do filme precisou ser remarcada porque surgiu um amistoso. Eles queriam assistir ao filme, mas não abrir mão do jogo. Acho isso maravilhoso.

Existe uma conexão direta entre o documentário e a Copa do Mundo, porque as últimas filmagens aconteceram justamente durante o Mundial de 2022. Encerramos as gravações e, logo depois, a Argentina chegou à final, o que nos levou a abrir uma diária extra para registrar aquele momento.

Mas acredito que o filme vai muito além do futebol. No fundo, ele fala sobre sonhos e sobre a capacidade de resistir. O que encontrei naquela cidade foi algo que reconheço em grande parte da América Latina: essa força da imaginação, esse encantamento que também aparece em tantos filmes latino-americanos.

Talvez isso exista porque vivemos em um território historicamente marcado por disputas e desafios. E, muitas vezes, é justamente o sonho que permite seguir em frente. É sobre isso que o filme também fala.