Steven Spielberg, o diretor de “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”. Steven Spielberg, o diretor de “Jogador N° 1”. Onde está a linha que separa o artífice pop do magnata cínico? Impossível dizer e é essa tensão que torna seus espetáculos, no melhor dos casos, instigantes (vide “Guerra dos Mundos” — e lá se vão 20 anos). Mas é também o que explica o porquê de alguns de seus filmes terem todo o jeitão de estrume marinado em sacarose.
É esse o Spielberg de “Jogador N° 1” e é esse o Spielberg de “Dia D” — embora esta sua nova incursão pelo sci-fi não seja tão maléfica quanto aquela propaganda corporativista (poucas coisas o são). O que não significa que os dois filmes não estejam próximos.
“Jogador N° 1” era uma espécie de desfile autocongratulatório das propriedades intelectuais de Hollywood e o papel de Spielberg ali era de porta-bandeira dos grandes estúdios, último decano da “magia do cinema”. Aqui, ele segue preocupado com seu próprio legado, mas, mais especificamente, busca ter a palavra final no tipo de cinema que ajudou a cimentar nos anos 1970.
Porque é em grande parte com ele e George Lucas, afinal, que toda a cultura de homens infantiloides chorando por bonequinhos têm início. Ao levar seu próprio deslumbramento infantil para as telas, Spielberg deu o aval para que mais ninguém precisasse crescer, desde que seguissem consumindo os produtos de seus personagens favoritos.
Mas se seus filmes de outrora tinham força, era porque o próprio Spielberg acreditava piamente nas suas bobajadas. Sua fé, no entanto, parece ter ido embora — e “Dia D”, ao reciclar um debate new age embolorado, sofre as consequências.
Se os ETs existem, o que isso nos diz sobre Deus? Eu diria que não muito, exceto que Ele curte ficção científica. Já Spielberg e seu roteirista David Koepp parecem convencidos de que a resposta é outra, embora o estatuto divino não mude muito no final da projeção. Koepp, parceiro de Spielberg em “Jurassic Park”, “Guerra dos Mundos” e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, não é alguém que você contrata por seus insights filosóficos, mas por escrever roteiros com o refino de um açougueiro. Sua especialidade consiste em entregar um texto funcional e sumir de vista o mais rápido possível.
Isso sempre foi o bastante para Spielberg, porque o diretor era capaz de injetar força e energia no mais esquemático dos textos — se não por meio do cinetismo frenético à la “Guerra dos Mundos”, então ao menos por meio da esquisitice das escolhas de “Caveira de Cristal”. Em ambos os casos, a imaginação de Spielberg dava conta do recado.
Mas em “Dia D”, o diretor parece satisfeito em se manter no piloto automático enquanto se envaidece ante o cinema de ficção científica que ajudou a estabelecer. Às vezes ele bebe da própria fonte: o mote do filme, em que pessoas comuns têm suas vidas viradas do avesso por meio de um encontro extraterrestre, remonta a “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”. Outras, se volta aos seus discípulos.
Se Shyamalan, por exemplo, outrora foi tratado como o “novo Spielberg”, aqui é o veterano quem faz referência a “Sinais” (um filme infinitamente melhor sobre fé e vida alienígena, feito por um crente de verdade). Por fim, há em “Dia D” muito de “Contato”, de outro de seus acólitos, Robert Zemeckis, desde as platitudes sobre fé aos avatares simpáticos escolhidos pelos ETs.
É um loop autorreflexivo que sequer tem coragem de abraçar seu cinismo, enfiando pelas nossas goelas um discurso dos mais requentados sobre empatia. O superpoder dos aliens, que recai sobre a jornalista vivida por Emily Blunt, é saber tudo da vida alheia com um único olhar, algo que ela usa para convencer seus antagonistas a fazer suas vontades. Concordo que conhecer as fofocas pode ser muito útil diante de algumas aporrinhações, mas dizer que isso se traduz em ser de fato mais empático, já são outros quinhentos.
E assim seguimos na superficialidade, com caracterizações que não só são ultrapassadas, como natimortas: Dia D tem toda a cara de um projeto esquecido há décadas, que passou por alguns retoques para os novos tempos. Assim, sai a ameaça da Guerra Fria, entram os temíveis norte-coreanos, a quem o filme alude como precipitadores da Terceira Guerra Mundial.
O mesmo pode ser dito do viés conspiratório: a trama enfatiza uma agência maléfica associada ao governo estadunidense, dedicada a esconder a verdade sobre a existência de aliens. O longa quer nos convencer de que o problema do mundo está na falta de verdade; com isso, não teríamos mais em quem acreditar e perderíamos a “fé no que virá”, como diria o poeta. Mas nossos tempos de conspiracionismo desmedido desmentem isso.
Não é que não acreditemos mais em nada, e sim que qualquer lunático é incentivado algoritmicamente a acreditar em seus próprios desvarios. É uma linha muito tênue, portanto, entre os conspiracionistas bonzinhos de “Dia D” e os conspiracionistas devoradores de Cheetos da vida real.
Talvez seja Spielberg, esse sim, quem não tem mais no que acreditar — exceto nos ecos de suas glórias passadas, claro. E o que há em “Dia D” além disso? Um Colin Firth apagado, vivendo um vilão que não diz a que veio; um Josh O’Connor esforçado, mas preso a um personagem sem muita personalidade; uma competentíssima Emilly Blunt tentando carregar o filme nas costas, mas fracassando com dignidade; um Colman Domingo relegado aos diálogos expositivos.
E Spielberg, no meio disso tudo, tendo um ou outro lampejo de inventividade visual — o raccord entre uma chuva de granizo e um punhado de cereal sendo despejado, um ou outro plano-sequência mais elaborado. Mas são exceções; o filme é apagado, sem brio. Caso se trate de uma celebração de si mesmo, “Dia D” se mostra um verdadeiro velório.
















