Misturando suspense policial, romance e música, O Afinador marca a estreia de Daniel Roher — vencedor do Oscar pelo documentário Navalny — na direção de longas de ficção. A trama acompanha Niki White, um afinador de pianos com uma audição extraordinária que acaba sendo arrastado para o mundo do crime ao descobrir que sua habilidade também pode ser usada para abrir cofres.
Para dar vida a essa história, o filme reúne dois dos nomes mais promissores de sua geração. Leo Woodall, conhecido por The White Lotus, interpreta o protagonista dividido entre seus dons e suas escolhas. Já Havana Rose Liu, destaque de No Exit e Bottoms, vive Ruthie, personagem fundamental na jornada emocional de Niki e na relação do filme com a música, a empatia e a vulnerabilidade.
Em entrevista ao Cine Set, os atores falaram sobre como a sensibilidade ao som influenciou suas atuações, a complexa relação entre seus personagens, os aprendizados adquiridos ao trabalhar ao lado de lendas como Dustin Hoffman e Jean Reno, e as interpretações que fazem do emocionante desfecho da história.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Uma temática importante do filme é a sensibilidade. Tanto em relação às pessoas quanto ao som. Havana, como a sensibilidade é importante na hora de tocar uma música e se relacionar com as pessoas ao seu redor? Essa percepção te ajudou a compor sua personagem?
Havana Rose Liu – Uma das razões pelas quais me apaixonei por este filme, tanto quando li o roteiro quanto durante as filmagens, foi a sensação de que existe uma ternura muito genuína na forma como ele retrata o amor. É uma história sobre amar alguém por meio do som e sobre amar algo tão profundamente quanto Ruthie ama a música.
Há tanto coração nessa relação com a arte que tudo parece muito sincero. Para mim, a arte, em sua melhor forma, é justamente isso: algo repleto de sensibilidade, emoção e humanidade. Senti que O Afinador conseguiu capturar muito bem essa essência, e foi isso que mais me tocou ao longo de todo o processo.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Leo, como enxerga a sensibilidade de Niki e como você a utilizou para compor seu personagem?
Leo Woodall – Precisei me tornar muito mais consciente do ambiente ao meu redor, especialmente dos sons que me cercavam, muito mais do que eu imaginava que seria necessário. Foi preciso desenvolver uma sensibilidade constante em relação a isso. Essa percepção acabou influenciando cada momento do personagem Niki, porque ele vive tentando se proteger da melhor forma possível. E, para fazer isso, acaba se fechando para muita coisa. Naturalmente, ele rejeita parte da vida e também das pessoas ao seu redor.
Felizmente, Ruthie derruba essa barreira e entra na vida dele. A partir daí, ele precisa aprender a ser sensível ao mundo que ela vive e às experiências dela. Mas essa é justamente uma das dificuldades do personagem: nem sempre ele consegue fazer isso da maneira certa.
Cine Set (Caio Pimenta) – A relação entre Niki e Ruthie é muito complexa, com sentimentos como paixão, afeto, admiração, inveja e ressentimento, todos misturados. No final, o que vocês acham que mais importa entre elas?
Leo Woodall – Boa pergunta.
Havana Rose Liu – O que importa mais? Amor? Que amor? Esses adjetivos que você usou são perfeitos para descrever a complexidade e as nuances do que eles enfrentam.
Leo Woodall – Ambos têm alguma aceitação do que querem alcançar em seu relacionamento. Nicky precisa aceitar que nunca será capaz de fazer o que Ruthie faz. E Ruthie precisa aceitar que isso é incrivelmente doloroso para ele.
Havana Rose Liu – Ela precisa aceitar.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Como é a relação de vocês com o som e como trouxeram isso para o filme?
Leo Woodall – Quando estava construindo o personagem, eu usava protetores auriculares que, para ser sincero, às vezes até esquecia de colocar. Algumas pessoas precisavam me lembrar. Também tinha aqueles fones enormes que o Niki usa e, não vou mentir, quando você está com eles, realmente não escuta muita coisa. Então houve cenas que foram bem complicadas de filmar usando aqueles abafadores. Isso mudou bastante minha relação com o som. Percebi o quanto eu normalmente o tomo como algo garantido. Para interpretar o Niki, precisei abandonar essa percepção e tentar enxergar o mundo da maneira como ele enxerga.
Havana Rose Liu – Lembro de entrevistar uma pessoa cujo parceiro tinha hiperacusia, a mesma condição do Niki. Ouvir a forma como ela demonstrava amor por ele, prestando atenção aos sons ao redor e adaptando pequenos gestos do cotidiano, foi algo muito emocionante para mim.
Isso me fez pensar mais nos sons da minha própria vida. Antes deste filme, eu não percebia o quanto a rua em frente ao meu apartamento era barulhenta ou como certos ruídos aparentemente pequenos estão presentes o tempo todo. Hoje, sinto que tenho uma compreensão muito maior da paisagem sonora que nos cerca.
É muito bonito desenvolver essa sensibilidade. Antes, eu pensava no som principalmente através da música. Agora, sou fascinada pelo trabalho dos artistas de foley e de todas as pessoas que trabalham diretamente com som. Passei a enxergar isso de outra forma, porque a trilha sonora da própria vida é algo realmente belo.
Cine Set (Caio Pimenta) – O Afinador conta com dois atores lendários: Dustin Hoffman e Jean Reno. Durante o tempo em que trabalharam com eles, houve algo que observaram que se tornou uma lição valiosa para as próprias carreiras?
Havana Rose Liu – Aprendi muitas coisas com ele. Parecia que, apenas por estar ali, ele compartilhava sabedoria o tempo todo. Dustin tem essa capacidade de ser uma fonte inesgotável de ideias. Às vezes, tenho a impressão de que ele está conectado a algo especial, porque toda aquela improvisação simplesmente fluía de forma muito natural. Era algo constante.
Todos os dias eram uma experiência diferente, observando para onde ele levaria uma cena e acompanhando esse caminho ao lado dele. Isso te mantém sempre atento.
Ao mesmo tempo, ele possui um carisma e uma serenidade que encontrei em algumas das pessoas mais experientes com quem já trabalhei. São profissionais que carregam uma gentileza e uma leveza capazes de deixar todos ao redor confortáveis, criando um ambiente em que você consegue dar o seu melhor.
Essa generosidade de espírito é algo que tanto ele quanto Jean Reno realmente personificam.
Leo Woodall – Foi a mesma coisa para mim. Trabalhar com Dustin foi daqueles momentos em que você precisa se beliscar para acreditar que está realmente acontecendo. Havana descreveu isso muito bem.
Mas uma das coisas mais interessantes que aprendi convivendo e trabalhando com ele foi perceber que, embora seja Dustin Hoffman e saiba exatamente a dimensão de quem é, isso não o torna imune às inseguranças, às dúvidas ou ao medo de se mostrar vulnerável.
Achei incrível ver alguém com toda essa trajetória ainda se permitir sentir essas coisas. Muitas vezes, são justamente esses sentimentos que podem nos paralisar quando estamos atuando. E, ainda assim, ele não tenta escondê-los. Pelo contrário, os incorpora ao processo. Foi uma lição muito valiosa de acompanhar de perto.
Cine Set (Caio Pimenta) – Com todos os alertas sobre spoilers a respeito do final do filme: o que você espera que aconteça com esses personagens? Ruthie conseguirá perdoar Niki? E Niki merece perdão?
Havana Rose Liu – É exatamente o tipo de questão que ela fica refletindo ao longo da história. Mas, para mim, o que ela mais deseja durante todo o filme é sentir que ele realmente a vê, se importa com ela e entende aquilo que é importante para sua vida. Ao mesmo tempo, ela também quer que ele se abra e compartilhe quem realmente é.
Não é o único desejo dela, mas certamente é o aspecto mais importante da relação entre os dois. E, no final da história — sem entrar em spoilers —, sinto que aa peça que ele faz acaba revelando muito sobre si mesmo, sobre sua vulnerabilidade e sobre o lugar emocional em que se encontra. Ao mesmo tempo, é uma demonstração de amor e de compreensão em relação a ela, mostrando que ele esteve ouvindo e prestando atenção o tempo todo.
Leo Woodall – Eu diria que sim. No fim, ele encontra uma maneira de expressar o que sente e de sair do próprio caminho, de não deixar que suas limitações o impeçam de agir. Pelo menos, ele tenta fazer isso. Claro, algumas flores e um bom jantar também ajudariam bastante. Mas, no fundo, acho que eles deveriam ficar juntos.
















