Em sua primeira cena, “Digger” introduz seu personagem-título, o bilionário interpretado por Tom Cruise, acordando em seu quarto opulento em uma enorme cama. A janela do quarto se abre então como as cortinas de uma peça de teatro, nos dando o primeiro sinal do tom teatral e farsesco com o qual o filme vai operar ao longo de toda sua duração.

O novo longa de Alejandro González Iñárritu (“O Regresso”, “Birdman”, “Amores Brutos”) trabalha essa farsa a partir de uma trama dupla e metalinguística: Digger Rockwell é um magnata norte-americano do petróleo, que precisa lidar com as consequências da explosão de uma de suas bases na Groenlândia, que gera uma série de desastres ambientais em cadeia. Mas – e aqui, desde já, aviso de spoiler caso você não queira saber -, logo descobrimos que Digger também é um personagem dentro do universo do próprio filme, vivido pelo ator Curtis (também Cruise), em uma encenação teatral ultratecnológica e satírica que recria os acontecimentos que levaram a um mundo pós-cataclismas climáticos.

Assim, essa representação teatral se torna uma justificativa diegética para Iñárritu encenar um mundo propositadamente cinzento e dessaturado, filmado com uma fotografia deliberadamente sem vida assinada por Emmanuel Lubezki, e recheado de personagens que são homens brancos e poderosos, propositadamente cartunescos e patéticos, enquadrados com um tom de estranheza por grandes angulares ou de baixo para cima.

Esse se torna um ótimo palco para Tom Cruise encarnar Digger como essa figura exagerada e excêntrica e nos lembrar o quão bom ator ele pode ser para além dos filmes de ação. Nesse sentido, ele ganha seu grande momento de “Oscar tape” em um longo monólogo, em que seu personagem busca se eximir da culpa pelas catástrofes em curso, atribuindo o uso desenfreado de combustíveis fósseis às responsabilidades individuais de cada um.

Porém, trabalhar essa farsa em uma abordagem metalinguística até demais acaba se tornando justamente a maior fragilidade de “Digger”, pois a crítica se esvazia e parece nunca ir além da própria farsa. Ao tentar balancear suas duas tramas, o filme se desequilibra sem saber muito bem como tratar o dispositivo da encenação teatral, que acaba funcionando como justificativa, como se o filme antecipasse as próprias críticas em vez de confiar no que está na tela. Assim, o mundo fora da peça explica sua própria sátira a todo momento, ou a diretora do espetáculo justifica antecipadamente a abordagem caricata e ilógica de seus personagens, por exemplo.

Há, porém, um lampejo no filme, no momento em que o próprio Curtis se indaga sobre a sua interpretação de Digger e dos demais personagens no teatro. Afinal, por que estamos mostrando homens poderosos e assustadores, cientes de suas próprias ações, como figuras patéticas? Inicia-se aqui um interessante debate sobre sátira, farsa, entretenimento e rir ou não das nossas próprias catástrofes, mas isso se torna em seguida apenas o trampolim para mais uma virada do roteiro relacionada ao personagem vivido por Jesse Plemons.

Ao final do espetáculo dentro do filme, o público sai vingado ao ver homens como Digger reduzidos ao ridículo. No próprio longa, porém, a sensação não se repete: ao tentar conciliar seus vários dispositivos, a obra de Iñárritu fica autoconsciente demais para chegar a algum lugar.