A voz mais impressionante do século XX. E que ainda impressiona.

Ou, se formos mais ousados, como a BBC não teve medo de dizer, a maior cantora do milênio. 

Elza Soares banca tudo isso. E, se há um mérito maior em “Elza“, novo filme do eclético documentarista Eryk Rocha (“Cinema Novo”, “A Queda do Céu“), é deixar que a biografada faça o que sabe fazer.

São inúmeras as performances contidas em pouco menos de duas horas de projeção, boa parte reproduzida, se não integralmente, quase. É uma estratégia feliz, porque a razão de ser do filme está na voz de Elza Soares, no seu suíngue no palco.

O mote é muito similar ao de outro documentário musical visto nesta edição do Festival do Rio: “Alucinação“, sobre Belchior. O biografado fala de si em off, e o filme ilustra sua fala por uma miríade de imagens de arquivo. A diferença é que aqui estamos sempre próximos à cantora, seja por meio de suas performances, seja pelos closes que acompanham uma Elza já idosa em algumas de suas últimas gravações e apresentações.

Nesses momentos, a câmera de Rocha, que poderia ser invasiva, resulta intimista. Imóvel, num silêncio de monumento, eis então Elza, a face tomada aqui e ali por tremores involuntários. Mas é só abrir a boca que o recinto parece se animar com trovoadas.

De fato, eu pensava frequentemente naquele verso imortal do poeta Duque-Costa: “Num estrondo infernal de petardos e trompas!”. O design de som e a mixagem do filme fazem o estrondo ser sentido desde o início, quando ouvimos o rebentar de ondas numa praia. 

Essa abordagem sonora também diz respeito à tal proximidade de que falava: é um som imersivo, como se tomássemos parte numa torrente de memórias. 

Um único pecado: a montagem, em geral bastante fluida, engasga aqui e ali, fazendo a metragem ser sentida ocasionalmente. Mas são ocasiões breves. 

Em outros textos da cobertura, afirmei que esses documentários musicais falam apenas aos convertidos. Na saída da sessão de Elza, já pisando fora do cinema, ouvi um casal comentando entre si: “deu vontade de ouvir mais coisas dela“. Tem elogio maior?