Em 1972, a TV Globo levou ao ar “Selva de Pedra”, novela de Janete Clair. Nela, um homem insatisfeito com sua vida, foge do interior após uma confusão, para ser engolido pela engrenagem da cidade grande, que é tão suja quanto seu caráter. Sete anos antes, vimos essa história, mas ao contrário. Um homem sem caráter e sem perspectiva, tentando escapar da selva de pedra que o sufoca, ainda que o problema talvez seja ele próprio. 

O longa traz a história de Carlos (Walmor Chagas), um inspetor de qualidade de uma grande montadora paulista. Ele progride até se tornar sócio de uma fábrica de autopeças. Apesar de seu sucesso profissional e pessoal, ele vive insatisfeito. Sem estímulo em meio a cidade de São Paulo, só resta a Carlos fugir.

Lançado em 1965, foi a estreia do diretor Luís Sérgio Person, trazendo já uma qualidade técnica impressionante. ‘São Paulo Sociedade Anônima’ abre com uma tomada de fora do apartamento do casal protagonista, flagrando uma discussão, onde Carlos a deixa. Então, a câmera se afasta e capta a cidade de São Paulo, enquanto vemos os créditos de abertura. Um movimento que me recorda das sequências de abertura de “Festim Diabólico” (1948) e “Psicose” (1960), ambos de Alfred Hitchcock.

Para além de Hitchcock, o longa ainda evoca o espírito da então em voga, nouvelle vague, aqui no Brasil, Cinema Novo. Sua ambientação tem um quê de cinema francês, mas o mais importante aqui: a história não é linear. Pelo contrário, observamos um “vai e volta” de situações e sequências, que se conectam em diferentes partes do filme. Há um tom documental, especialmente nas cenas externas, em que Carlos anda por São Paulo. As tomadas são filmadas de forma que podemos experienciar a angústia da personagem em viver ali e daquela forma.

É um retrato para a posteridade, de um país que se industrializou em alta velocidade, e de indivíduos que tentaram acompanhar esse ritmo sem serem engolidos por ele. O filme é, de certa forma, uma radiografia existencial da modernização brasileira. ‘São Paulo Sociedade Anônima’ pede e precisa que você preste atenção, ainda que ao final sua mensagem seja a mesma, independente da ordem exibida na tela. Bom, para a maioria talvez. Eu o entendi de outra forma.

Em um vídeo publicado em 2015 – ocasião em que ‘São Paulo Sociedade Anônima’ completava meio século, a filha de Luís Person, Marina Person, discorre brevemente sobre a mensagem do longa. Marina fala sobre Carlos e como ele é engolido por aquela metrópole em acelerado processo de industrialização e crescimento, e a necessidade de fugir daquilo tudo. Ok, faz sentido. O título vem do fato da cidade em si estar tornando-se uma “sociedade anônima”, com todas aquelas empresas estrangeiras se instalando e as nacionais surgindo e crescendo. Mas é interessante como a natureza psicológica da personagem é escanteada.

Nesse pequeno estudo de personagem que fiz enquanto assistia, percebi que Carlos é simplesmente uma pessoa ruim. Minha comparação com o protagonista de “Selva de Pedra” vem daí. Ele trai, mente, abandona, usa e joga fora a seu bel prazer, só que diferentemente da teledramaturgia, nada disso é por dinheiro, poder ou status. Quando finalmente cria coragem e comunica que vai partir, vemos uma fagulha de felicidade nele, que não dura mais que uma noite. Talvez Carlos sofra de depressão? Não faço ideia e nem deveria estar diagnosticando assim (ainda que seja ficção), mas é uma visão interessante que eu penso ter tido, uma vez que não podemos culpar exclusivamente fatores externos para nossos problemas pessoais. Ou talvez eu só queira encaixá-lo num molde, quando as coisas também não são preto no branco assim. 

De qualquer forma, malvado ou injustiçado, é um fato que Walmor Chagas brilha como o angustiado Carlos. Também fazendo sua estreia no cinema, ele sustenta a maior parte da narrativa e ainda que eu o ache um crápula, me peguei torcendo pra ele quando decidi furtar um carro. Eva Wilma é sempre esplendorosa, especialmente quando percebe que não pode mais segurar seu marido e pai de seu filho próximo a ela. Enquanto isso, Ana Esmeralda deixa a tela melancólica com sua Hilda e seu monólogo “pessoal e intransferível”, com vista para os arranha-céus da cidade.

A São Paulo cinza, o uso de locações reais, a câmera que observa com crueza documental. É uma obra-prima que me deixou vidrado do início ao fim. Meus questionamentos quanto ao protagonista só reforçam o teor crítico e atemporal do longa, uma vez que também São Paulo continua a crescer, se modernizar e ser alvo de um “brazilian way of life”, enquanto é comum vermos uma nação sofrer com esgotamentos, burnout e toda a insatisfação com a forma que a engrenagem roda. O existencialismo não é apenas filosófico: é econômico, urbano e estrutural.

Seu final é totalmente irônico, e talvez, tenha um ímã que te puxe de volta, talvez você não queria ter realmente ido embora, talvez você ainda não sabe o quer, ou talvez nunca saberá. Talvez todos os caminhos levem à São Paulo.