Um Amazonas visto pelo olhar de dentro, do seu povo, daqueles que habitam essa imensa pluralidade de um ecossistema gigantesco. Assim é Bem-Querer, novo filme do cineasta amazonense Victor Kaleb.

Nessa imensidão amazônica em que vivemos, há os diversos “interiores dos interiores”, como afirma o diretor. É nesse sentido que ele, em parceria com César Nogueira — que assina o roteiro — encara esse projeto, também sob a ótica da relação com o outro que não está acostumado à cultura dos interiores, rio e mata adentro. Para Kaleb, o título do filme sintetiza esse lugar de (re)encontro e atenção: “Esse nome é porque a gente vê esses lugares como um lugar de calmaria, um lugar de paraíso, um lugar para ficar tranquilo — e nem sempre tão tranquilo assim”.

Ítalo Bruce e Amanda Magaiver estão entre os protagonistas do curta. Foto: César Nogueira

A dinâmica entre homem, natureza, identidade e memória na cultura da região perpassa os mitos e lendas amazônicos e revela a importância de resgatar esse legado mitológico aos olhos do seu próprio povo, reafirmando seu lugar de protagonismo e, no meio audiovisual, colocando essas vozes, esses corpos e essas narrativas sob sua própria ótica.  “Acho que a gente começa a revisitar um pouco, no cinema, esse lugar dos nossos mitos e lendas, né? Falando dessa comunidade que já tem um pouco de urbanicidade e como é essa relação com as pessoas que vêm de fora, que seria o caso de Berenice”, ressalta a atriz Amanda Magaiver, intérprete da médica Berenice — uma pessoa de fora dessa comunidade, Bem-Querer (localizada entre as comunidades de Caldeirão e Jandira) — e que certamente terá conflitos com os moradores e seus modos de vivência.

Victor Kaleb acompanha a atriz: “Eu acho que existe um certo movimento agora de que a gente tem uma certa revolta de não se sentir, de não se enxergar nos filmes que estão sendo feitos na Amazônia do jeito que a gente gostaria de contar”.

Hamyle Nobre é a diretora de fotografia de “Bem-Querer”. Foto: César Nogueira

A ‘pequena grande’ produção tem essa preocupação em desconstruir o pensamento colonizador do exótico e fetichista que ainda persiste sobre esses corpos, culturas e vivências. Pensamento esse que também atinge pessoas nascidas e criadas no Amazonas, uma grande armadilha, segundo Kaleb, para perpetuar um lugar menor no que tange às diversas culturas espalhadas Brasil afora. E é por isso que o curta também se configura como um espaço de conexão para o diretor:

“A gente fez o set de filmagens na casa dos meus pais e uma das florestas que a gente usou no filme foi uma floresta que é lá de casa. Acaba sendo um lugar da minha memória, de infância mesmo. Entrar nessa floresta como cenário tem para mim uma conexão emocional real, um lugar onde eu construí meu imaginário amazônico. Tenho muito respeito por isso e acredito em muita coisa também. É um filme sobre imaginário amazônico”.

Gravações aconteceram entre o fim de março e início de abril de 2025. Foto: César Nogueira

Podemos perceber, nessa fala, que Bem-Querer irá explorar diferentes gêneros para contar a história de um imaginário popular amazônico, dentro dessas diversas Amazônias que estão a poucos quilômetros de distância umas das outras — destacando, principalmente, a sua diversificada visão de mundo e vivências.

Com uma produção enxuta, tendo o roteirista também como produtor executivo e editor, Kaleb e Nogueira atuaram em perfeita sincronia — desde as necessidades de locomoção até os ajustes do roteiro. Um encontro amigável que se estendeu ao restante da equipe, que, agora, assim como nós, espera ansiosamente para ver Bem-Querer nas telonas.

Sobre a cultura do interior do Amazonas, que vive um pouquinho em nós, mas que, em seu organismo mais vivo — nesses interiores — é vivida com mais intensidade, como diz Kaleb.

Onde nossos pés ousam pisar?
A ver!