De Fjord a Michael, Caio Pimenta traz a segunda parte do candidatos ao Oscar 2027 de Melhor Filme com produções com chances médias.

CHANCES MÉDIAS – A ARTE DE SER HEUMANN

A lista de candidatos com chances médias inicia com uma turma mirando nas tradições da Academia para emplacar em Melhor Filme. 

“A Arte de Ser Heumann” traz a história real, ambientada nos anos 1970, pouco conhecida do grande público na atualidade, mas com impactos significativos para os EUA. O drama sobre o protesto de um mês de duração da ativista fundamental pelos direitos das pessoas com deficiência traz aquela história poderosa e inclusiva que a Academia vez ou outra prestigia. 

Basta lembrar de “Coda”, um simpático filme que superou “Ataque dos Cães”, “Amor Sublime Amor” e “Drive my Car” na edição de 2022. Neste sentido, “A Arte de Ser Heumann” traz Sian Heder como diretora, a mesma do longa sobre deficientes auditivos. Para tanto, será preciso que Ruth Madeley, protagonista cadeirante do filme, cresça na corrida de Melhor Atriz para ajudar no impulsionamento da produção. 

Por outro lado, me questiono sobre se os votantes do Oscar estarão dispostos a repetir o filme de cinco anos atrás em uma fórmula bastante parecida. Se em 2022, a vitória de “Coda” parecia bonita pela inclusão, o tempo tornou aquele resultado bastante questionável. Em uma temporada com filmes tão marcantes chegando como favorito, prestigiar uma obra tão convencional como “A Arte de Ser Heumann” soaria incongruente. 

CHANCES MÉDIAS – MICHAEL

“Michael” quer surfar no filão das cinebiografias clássicas tão prestigiadas pela Academia, repetindo trajetórias recentes de “Bohemian Rhapsody“, “Elvis“ e “Um Completo Desconhecido“. Fazer isso embalado pelos clássicos do Rei do Pop, a nostalgia, toda recriação visual daquele período e, claro, o sucesso de bilheteria em temporada marcada por grandes hits contribuem a favor do longa. 

Duas questões, porém, atrapalham “Michael“: a primeira é que o filme passou longe de ser uma unanimidade entre a crítica com muitos questionamentos sobre as omissões à vida do Rei do Pop e ser uma produção extremamente chapa branca; o segundo é o fato de que a história está apenas na primeira parte. Logo, a Academia pode deixar para prestigiar a cinebiografia quando for concluída e não agora. 

CHANCES MÉDIAS – club kid

Elogiado em Cannes, “Club Kid” foi alvo de grande disputa para saber quem seria o distribuidor nos EUA. A A24 venceu a corrida por US$ 17 milhões. A história é daquelas que mistura temas atuais a partir de um promotor de festas queer com uma tradição antiga de pai e filhos se reencontrando. Receita perfeita para dialogar com os mais diversos públicos. 

O grande problema é “Club Kid” encontrar espaço na A24: o estúdio já possui no catálogo para esta temporada ‘apenas’ “The Debut” e “O Convite“. Dificilmente vejo a Academia prestigiar três longas do mesmo estúdio em Melhor Filme. 

CHANCES MÉDIAS – BEHEMOTH!

“Behemoth!” segue como grande incógnita: o lançamento está marcado para o início de outubro no Festival de Nova York e depois vai para Londres. Ter Pedro Pascal, Olivia Wilde, Will Arnett e Eva Victor a partir da direção e roteiro do Tony Gilroy chama a atenção naturalmente. Pode crescer na temporada. 

CHANCES MÉDIAS – PRIMETIME

“Primetime” passou por Veneza e não empolgou tanto quanto o previsto; na verdade, o drama do Lance Oppenheim dividiu bastante pelo seu estilo grotesco e pesado. Se foi assim com a crítica, imagina na Academia com um perfil mais conservador? 

Neste momento, a A24 precisa concentrar os esforços em fortalecer “Primetime” após Veneza, especialmente mirando o Robert Pattinson. As chances dele de indicação em Melhor Ator sofreram um abalo significativo para o Oscar. Caso consiga, o estúdio pode repensar estratégias para ir a Melhor Filme. O cenário, porém, não é animador. 

CHANCES MÉDIAS – AMOR POSSÍVEL

O Oscar 2027 repete as três últimas edições com a presença de dois longas internacionais indicados a Melhor Filme? Se isso acontecer, o sul-coreano “Amor Possível” está de olho em uma das vagas. O drama do Lee Chang-dong foi extremamente bem-recebido em Veneza, ganhando o grande prêmio do júri e o prêmio da crítica. A produção tem o apoio da Netflix, o que garante uma distribuição forte nos EUA. 

Vale lembrar, porém, que o streaming já conta com “La Bola Negra“. Isso pode levar a dois caminhos: do lado favorável, é a Netflix considerar que pode fortalecer “Amor Possível” visto que o musical espanhol já está mais do que garantido em Melhor Filme. Pelo lado negativo, o estúdio pode focar tudo no drama espanhol e deixar de lado qualquer outra distração. 

CHANCES MÉDIAS – FJORD

Também do time internacional está “Fjord“. Se a produção do Cristian Mungiu traz a credencial da Palma de Ouro, a recepção em Toronto e Telluride colocou a força do filme em dúvida. A opção por não adotar rotas simplistas de condenações fáceis, estimulando uma dubiedade em relação aos protagonistas questionáveis deve afastar muitos setores da Academia.  

Por outro lado, Renate Reinsve e Sebastian Stan podem conseguir neutralizar as críticas e fortalecer a campanha de “Fjord”. O certo é que a Neon precisará trabalhar bastante para conseguir firmar a produção no Oscar. 

CHANCES MÉDIAS – ARTIFICIAL

“Artificial” é outra aposta da Neon na temporada. Cercada de polêmicas após o despejo que sofreu da Amazon MGM Studios, a produção do Luca Guadagnino passou “O Outro Lado das Redes” como o filme sobre o mundo da tecnologia nesta temporada de premiações. 

O lançamento no Festival de Nova York deve dimensionar o tamanho da força de “Artificial“. Se o tema é urgente e está em pauta ao redor do planeta pelos perigos da inteligência artificial e da influência dos bilionários do Vale do Silício, Guadagnino vem de filmes que prometiam muito para o Oscar e não foram para lugar algum. Aconteceu com “Rivais“, “Até os Ossos” e “Depois da Caçada“. Será que repete o filme? 

CHANCES MÉDIAS – YOU CAN SEE EVERYTHING

O surgimento de “You Can See Everything” chocou o mundo do cinema. Elizabeth Holmes, empresária que criou um gigantesco esquema de fraude na saúde dos EUA, aceitou ser gravada antes e durante a prisão dela por Nathan Fielder e Lance Oppenheim. 

Todo o projeto da A24 foi realizado em sigilo durante impressionantes três anos. A estreia em Toronto e a divulgação do trailer se tornaram o assunto do momento. Este combo torna “You Can See Everything” um filme inevitável e obrigatório desta temporada de premiações. 

Apesar de não ser um nome popular, Nathan Fielder é um daqueles nomes que chama a atenção da crítica e da indústria a cada novo projeto. A estranheza e originalidade que traz são fascinantes para um audiovisual dos EUA viciado nas mesmas fórmulas. Ter ao lado Lance Oppenheim, documentarista premiado com o Oscar e estreando na ficção com “Primetime“, cria uma dobradinha forte para conseguir o improvável: um documentário em Melhor Filme. 

“You Can See Everything” ser este filme que joga com o híbrido entre ficção e documentário somado a este momento em que a Academia quebra barreiras antes intransponíveis para longas internacionais, por exemplo, a partir da renovação de seus votantes, permite sonhar com este fato inédito.