O panorama adotado pelo cinema brasileiro no início deste século se mostrou bastante interessante, muito devido à forma como se buscou abordar histórias e construções que reproduzissem um realismo cênico nos textos e cenários, bem como a brasilidade inserida nos contornos. O filme de estreia de Sérgio Machado, Cidade Baixa é grande atestado da beleza tecida em duros moldes e catalisa todos esses elementos possíveis em um objeto de puro significado. Com os 20 anos de estreia do belíssimo filme, podemos enxergar, em sua época de realização, como o cinema do Brasil se encontrava, assim como os pontos que o tornaram inestimável ao longo dessas duas décadas.
Quando observamos o contexto da retomada do cinema nacional – do final dos anos 90 até o início dos anos 2000 –, é justo colocar Cidade Baixa como ebulição desse território adentrado e disseminado. Aliás, essa forma de engrandecer as locações, neste caso Salvador, configura um meio de situar cada espaço como personagem vivo de determinada narrativa, posto que este se alimenta de forma a integrar completamente a jornada das personagens. É preciso reconhecer que essas maneiras usuais atribuídas aos filmes daquele momento surgiram após uma torrente criativa, de vários cineastas desejando contemplar um cinema de estudo, de arte provocativa, onde a crueza dos fatos emana em tela. Em risco, mas tudo é equivalente: o terreno antes oprimido pelos escassos recursos ao audiovisual na década anterior se desgarrava de forma incontrolável, em busca de jornadas de pertencimento e ousadia artística.
A natureza de uma obra se constrói por meio da integração de elementos, desde detalhes mais específicos até partes concretas de composição. No cinema, sobretudo, necessita-se da associação íntima do autor com sua própria ideia. Desse modo, o idealizador Sérgio Machado deu valor à sua criação encontrando, ao longo de dois anos, o conceito e a imagem que desejava para Cidade Baixa e, com o auxílio de Karim Aïnouz – outro forte representante do nosso audiovisual –, modelou um roteiro denso, contando a crônica de três personagens emergidos pela marginalidade e miséria, que se envolvem em um intenso e forte triângulo amoroso. Ao optar por um centro grande e periférico de Salvador como pano de fundo, Machado mergulhou na área durante o processo de escrita, a fim de adquirir o conhecimento necessário, seja nos bairros portuários ou nas casas noturnas da mesma cidade.
Sabendo dessa base, quando acompanhamos sua exibição, entendemos que a estrutura do filme é mais completa do que aparenta, pois a condução do roteiro é apenas um dos bons fatores que constituem a obra. Desde a participação impecável dos atores Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga, passando pela direção sóbria e austera de Machado, até a trilha sonora de Carlinhos Brown, Cidade Baixa é o retrato obstinado de uma Salvador sem polidez ou beleza, de uma classe marginal cercada por violência – um recorte de um Brasil mal encarado, e a obra nunca esquece de pertencer a esse lugar. Se somos tragados por essa jornada repleta de paixão, sexo, traições e violência, não devemos oprimir: apenas sermos testemunhas dessa verdade representada. Tendo em vista o cenário encontrado em 2005, o realismo obtido em imagem deve ser considerado, e sua manifestação assumida como mais uma das traduções pungentes de uma realidade pouco afirmada no Brasil.
Devemos entender Cidade Baixa como a representação afã de um cinema-verdade possuído por todas as qualidades necessárias: uma interação crua e cruel sobre o definhamento humano e social de alguns seres. Tênue e sumária, a vida de indivíduos que são sujeitos terrenos, abraçados pela sobrevivência, pelo descaso ou pela tragédia, pode apenas se agarrar ao que nutrem ou pretendem. A importância da obra está, em si, também na maneira como vemos a beleza e a história do cinema brasileiro tentando reproduzir a própria natureza humana de seu país e de seu povo.














