“F1” não esconde que se trata de uma versão oficiosa do maior campeonato de automobilismo do planeta. Isso fica nítido quando aparece o título do filme com a mesma logomarca presente em todas as transmissões da corrida e jogos licenciados. Diante disso, esqueça qualquer tipo de criticidade ou mísera reflexão sobre aquele universo que será visto dali em diante; é a famosa obra de fã para fã de propriedade intelectual no estilo Marvel Studios, DC Comics, Mattel, Sega, Nintendo, Lego — aqui, porém, do esporte.

Joseph Kosinski, diretor do excelente “Top Gun: Maverick”, ao lado do roteirista Ehren Kruger, compreende que a essência do negócio está muito mais nas corridas do que em qualquer trama que possa ser criada. Não à toa, Sonny Hayes (Brad Pitt), ao ser perguntado qual a razão de entrar por livre e espontânea vontade em um carro que pode atingir a inacreditável marca de 340 km/h, empaca e se mostra incapaz de formular algo minimamente coerente.

Talvez seja pela mais pura adrenalina que aquilo provoca, ou por querer exorcizar os traumas do passado, ou pela necessidade masculina de precisar se provar como o melhor, mas toda essa vã filosofia fica apenas aqui na minha divagação; “F1” não está interessado nisso – e quem poderá culpá-lo? É evidente que tal desprezo por um roteiro minimamente desenvolvido cobra um preço. Afinal, são 2h36 com aqueles personagens, e chega um certo momento em que você pouco está se importando com a briguinha entre Sonny e o companheiro de equipe Joshua Pierce (Damson Idris), ou o romance entre o personagem de Brad Pitt e Kate McKenna (Kerry Condon), a diretora técnica da escuderia Apex GP, e muito menos com a tentativa de golpe em uma reviravolta desnecessária na reta final. Até mesmo as contestáveis e perigosas atitudes do protagonista para obter melhores resultados são tratadas como brincadeirinhas.

Com isso, o foco fica todo nas sequências de corrida. E “F1” brilha de forma contundente nesse quesito: o design de som impressiona com todas as nuances do ronco do motor, de cada toque dos carros pelas chicanes e britas, à explosão da torcida e dos fogos de artifício. Somos transportados para a vibração de um autódromo em um trabalho que se casa com a direção de fotografia e montagem: planos abertos, detalhes, fechados, médios, a visão do piloto, a visão aérea, cenas do alto do carro ou de frente do piloto se intercalam de forma absolutamente frenética, enquanto vemos cada centímetro da Apex GP sendo apresentado. Kosinski mostra que a lição aprendida em “Top Gun: Maverick” foi aprimorada ao ter ao seu lado o produtor Jerry Bruckheimer, gigante do cinema de ação hollywoodiano desde a década de 1980.

Neste ponto, aliás, vale uma nota sobre Brad Pitt: claro que o galã continua belíssimo e tem um carisma monstruoso — impossível não dizer sim para qualquer coisa quando ele solta aquele sorriso. É daquelas figuras que dominam a tela e sabem do seu poder. Por outro lado, é inevitável a comparação com Tom Cruise, até por Kosinski vir de “Top Gun”: por melhor que as cenas de ação sejam construídas imageticamente, fica a sensação de que aqueles momentos seriam ainda mais fantásticos se fosse o intérprete de Ethan Hunt.

Com a presença de estrelas da modalidade como Charles Leclerc, Max Verstappen e, claro, o heptacampeão Lewis Hamilton (também produtor do longa), citações a lendas como Michael Schumacher, Alain Prost e o nosso Ayrton Senna, bastidores de toda a tecnologia usada nos carros com simuladores dos mais diversos e alguns dos circuitos mais icônicos (faltou Interlagos), “F1” consegue certamente agradar aos fãs de automobilismo e deve atrair um pouco mais os norte-americanos à modalidade — por lá, a Nascar e a IndyCar são mais conhecidas — graças às incríveis e muito bem executadas cenas de ação. Ainda assim, o caráter de relato oficioso sobre a Fórmula 1 tira o molho do filme, sendo uma versão limpinha de um esporte que passa longe disso.

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

    Ver todos os posts