Há 50 anos, um fenômeno arrastava três milhões de brasileiros para as salas de cinema. Era a história da irreverente “Xica da Silva”, que catapultou a carreira de Zezé Motta. Meio século depois, é possível dizer que o filme ressoa para além das questões sociais e históricas do Brasil colônia, sendo também um sutil aceno à liberdade de expressão e rebeldia em meio ao Regime Militar. 

O longa dirigido por Cacá Diegues traz a história da escrava Xica da Silva (Zezé Motta) que conquista o representante da corte portuguesa, João Fernandes (Walmor Chagas) durante a segunda metade do século XVIII. Ela consegue a alforria e vira a Rainha do Diamante, satisfazendo todos os seus desejos extravagantes.

Em 1996, uma adaptação da história em formato de telenovela, protagonizada por Taís Araújo, foi levada ao ar pela Rede Manchete. Essa versão é conhecida pela extrema violência e pelo sadismo incorporados à narrativa, que passam longe da atmosfera do longa, indo este muito mais para o lado da comédia e erotismo. Ainda assim, nenhuma das duas histórias retrata exatamente quem foi Xica da Silva: ela de fato viveu uma longa relação com o comendador e chegou a ter mais de 10 filhos, e mesmo após a partida para Portugal, a ex-escrava ainda manteve seus bens e seu status adquirido na sociedade, vivendo confortavelmente até os últimos dias. 

A fidelidade aos fatos, entretanto, não era o foco de Diegues: “Xica da Silva” não se propõe a ser uma crítica social ao período da escravidão, mas sim em retratar a exuberância e irreverência de uma mulher que se rebelou graciosamente ao sistema. Trata-se do mito que seu nome representa, pelas próprias palavras do diretor: “Um filme sobre o mito Xica da Silva e, através dele, o amor pela liberdade, a imaginação criadora e a sensualidade de nosso povo”.

O foco é todo na esperteza da protagonista, retratada em um longa extravagante, puramente teatral, vívido e que beira o anacronismo. E esse talvez seja o seu maior trunfo: não ter se prendido em amarras históricas, de forma que a história contada ressoe com o público que a assistia lá no longínquo ano de 1976 e aos que verão em 2026. 

O tom carnavalesco empregado na trama vem junto de uma alegoria, ainda que indireta e sutil, ao Regime Militar vigente na época. “Xica da Silva” mostra que poder e status são corruptores morais, ainda mais quando adquiridos por meio de força e outros meios não habituais. 

Sob o governo Geisel, um dos períodos mais violentos da ditadura militar, o surgimento de um fenômeno como Xica da Silva ganha ainda mais força. Em um contexto de opressão e marginalização, o filme coloca no centro da narrativa uma mulher negra, segura de si e determinada a realizar seus desejos mesmo diante das estruturas de poder. Ao recorrer à sátira, a obra transforma o passado em instrumento de deboche contra aqueles que perpetuavam a violência e a exclusão no presente.

Em  contraponto a Xica, temos José (Stephan Nercessian), filho do primeiro patrão da protagonista. O personagem representa a figura do jovem revolucionário na luta uma sociedade melhor. Ele chega a ir embora para batalhar contra quem acredita estar explorando e levando as riquezas do país para fora, mas retorna para escapar de maiores represálias, se escondendo num convento. A cena final acontece neste cenário e é emblemática, com Xica, após ser rechaçada pela cidade, juntando-se a José, mostrando a união de dois revolucionários. Uma alegoria de resistência para aquela juventude dos anos 1970 seguir na luta por aquilo que acreditam e desejam. Um recado válido ainda para os dias de hoje.

Zezé Motta é emblemática como Xica. Sempre hilariante, é impossível tirar os olhos dela. A atriz personificou um modelo de empoderamento para as mulheres negras da época, como diz a atriz Isabel Fillardis em entrevista ao programa “Sem Censura”. Graças à personagem, mulheres negras se permitiram ver em um espaço de enfrentamento, poder e de igualdade de serem debochadas. A própria Zezé Motta conta em entrevistas da época que Xica da Silva foi quem a permitiu se valorizar como atriz, fazer o que realmente queria e ser bem remunerada por isso. Personificar Xica a permitiu crescer não só dentro do país, mas a rodar o mundo, ser reconhecida internacionalmente, e não somente como atriz, mas também como cantora. 

A direção de Cacá Diegues é um dos principais elementos da força e originalidade do filme. Um visual vibrante e um ritmo dinâmico, em que o espectador jamais se cansa e a todo momento se diverte com as traquinagens das personagens. O cineasta revisita o período colonial brasileiro sob uma perspectiva irreverente e provocativa. Marcante a trilha de Jorge Ben Jor, embalando o filme em diversos momentos e grudando na mente ao enunciar repetidamente o nome de nossa heroína (ou anti, como preferir).

Ainda que exale independência, o longa esbarra na hipersexualização de corpos negros. É o desejo que os homens que a rodeiam sentem por Xica e como ela se aproveita desse desejo fisicamente, utilizando-se de seu corpo como motor condutor da trama. Acredito que no contexto da história e do período em que ocorreu foi a forma que a personagem encontrou para se impor diante daquela sociedade. Xica teve de usar o corpo como arma de sua própria sobrevivência. 

Curiosamente, os atos nunca são mostrados, se restringindo somente a voice-overs (e deixando o mistério do truque a que Xica submetia os seus homens), dando ainda ao filme um pé na pornochanchada, em alta na década de 1970. Meio século depois, “Xica da Silva” se mantém irreverente e a representação de sua protagonista ainda é um chamariz para a emancipação. Um excelente filme, que brinca com sua ousadia e satiriza toda a política transformando tudo em Carnaval.