Pegue a filha em ascensão de uma das maiores atrizes do país. Um dos galãs do momento. Um diretor vanguardista. Adicione um prêmio em Cannes e uma bilheteria exitosa. Misture tudo. Pronto, você agora tem um excelente filme – ou, ao menos, é o que ele deveria ser.
Dirigido por Arnaldo Jabor, ‘Eu Sei que Vou te Amar’ traz apenas dois personagens no centro de toda a ação: Ela e Ele. Sem nomes, o casal visto na tela discute o fim precoce de seu casamento, numa espécie de sessão de psicanálise, filmada por 102 minutos, em que nós espectadores, assumimos a função de analista. É quase como uma peça de teatro. Talvez devesse ter sido uma peça de teatro.
A história é desenrolada em apenas um ambiente, a antiga morada do casal, que agora parece pertencer apenas a Ele. É para lá que Ela se dirige, em uma tentativa de findar todas as pontas soltas que ainda pairam sobre o relacionamento, e nisso entramos numa longa jornada noite adentro de revelações, confissões, decepções e dramaticidade extrema.
A dramaticidade no longa é puramente teatral, o texto é teatral, a direção é teatral, a iluminação é teatral. O filme é teatro puro. Mas é preciso entender que cinema e teatro falam línguas diferentes, o que veste em um, não necessariamente caberá ao outro. Ainda que não faltem exemplos de peças que tiveram êxito ao passarem para as telonas, ‘Eu Sei que Vou te Amar’ sofre justamente porque nunca foi uma peça, mas sim escrito diretamente para tela. Jabor talvez tenha entendido isso, já que posteriormente transformou-o em livro, onde o seu texto erudito talvez tenha servido melhor à forma.
Em um dos textos que li sobre o filme na internet, uma passagem me chamou a atenção. O longa é descrito como “muita masturbação pseudo-intelectual e erudição vazia”, e não poderia concordar menos. Jabor tenta fazer um filme da Nouvelle Vague de 1960 em 1980, mas acaba sendo um pastiche ultrapassado de Godard. Contextualizando, já no fim do Regime Militar, o país já havia estabelecido uma identidade cinematográfica, que dialogava com o público da época. ‘Eu Sei que Vou te Amar’ é datado até pra 1986.
O texto é extremamente cafona e a maioria de suas sequências são vergonhosas. Em um dos momentos, o casal aproveita para fazer um lanche, enquanto discute na cozinha com as portas das geladeiras abertas. O que tem de errado? Bem, o que era pra provavelmente ser mais um momento dramático, soa como uma das cômicas DRs de Rui e Vani de ‘Os Normais’ (2001). Outro destaque (negativo) vai para Pan Chacon imitando um robô enquanto olha seu reflexo num lago. Camp? Nonsense? Tosco.
Fernanda Torres é a alma do filme: a atriz faz jus ao prêmio de Melhor Atriz conquistado em Cannes. Ela se esforça para que aquele texto canastrão soe convincente ao sair de sua boca. O mesmo já não vale para seu parceiro de cena, Thales Pan Chacon, em uma performance artificial e que, em momento algum, sequer se aproxima de Fernanda. Um filme em que o elenco é composto por apenas duas pessoas, jamais deveria dispor de uma discrepância tão grande assim. Erro crasso. E ainda que a fotografia do filme seja muito bonita, isso não sustenta um longa-metragem. Arnaldo Jabor também não sustenta o único ambiente da história. Seu diretor não é nenhum Hitchcock ou Lumet, seu filme não é nenhum ‘Festim Diabólico’ (1948) ou ‘12 Homens e uma Sentença’ (1957). Aliás, a própria protagonista já declarou publicamente não gostar do filme. É…
Em determinado momento, Ele exclama que já não aguenta mais esse lero de casal, e define a ação como medíocre. Bem, se o próprio texto diz isso, quem sou eu para discordar. É só mais uma receita que não deu certo.














