Pode ser o best-seller que for com muitos fãs espalhados ao redor do mundo, mas, “A Empregada” nada mais é do que aquele livro mediano de suspense com uma série de reviravoltas óbvias que você consome sem maiores dificuldades somente para passar o tempo. Obras como de Freida McFadden estão aos montes nas livrarias brasileiras com aquelas capas feitas a toque de caixa e seu público cativo, o que é até admirável visto o baixo volume atual de leitores regulares.  

A adaptação para os cinemas traz como maior mérito compreender justamente as fragilidades da obra original e não pretende elevá-la ao que não é. Pelo contrário: graças a Paul Feig, diretor com passagem pela série “The Office” e da ótima comédia “Missão Madrinha de Casamento”, “A Empregada” joga com o cinismo para rir dos clichês do suspense e dos próprios personagens. 

Desde o início, fica claro que ninguém ali é flor que se cheire: Millie (Sydney Sweeney) mente na cara dura na entrevista de emprego, fingindo ser quem não é a ponto de nem os óculos que usa serem de verdade. A ricaça Nina Winchester (Amanda Seyfried) recebe a protagonista com uma simpatia muito fora do comum oferecendo um emprego dos sonhos para qualquer pessoa desesperada. E não demora muito surge Andrew Winchester (Brandon Sklenar), o bonitão marido e super gente boa – até demais para ser verdade. Para completar, a mansão é o local dos sonhos cheia de espaço, mas, com o quartinho da empregada no último andar com uma janela que não abre, sem banheiro nem chave. 

Sabendo que o público não é besta, Feig não espera muito para começar a desconstrução desta perfeição e com menos de 30 minutos já temos Nina dando um chilique enorme do nada e segurando um objeto cortante com a mão ensanguentada. Já Millie tem um sonho erótico com Andrew e, pouco depois, desfila com um decote generosíssimo, encontrando o patrão na sala de TV no meio da madrugada. Enquanto as amigas ricas da dona da casa falam os podres dela pelas costas da coitada, a mãe do nosso galã surge como uma mistura de Cruela Cruel com Miranda Priestly… Resumindo: o alerta de que ‘vai dar m…’ está totalmente ativado. 

Este cinismo acaba muito bem aproveitado pelo elenco: Amanda Seyfried se joga no caricato para mostrar como Nina é fora da caixinha, enquanto Brandon Sklenar aposta no galã príncipe encantado impossível de fazer qualquer coisa errada. Sydney Sweeney traz uma rebeldia da pessoa disposta a tudo para sobreviver, surpreendendo como se deixa envolver pelo borogodó do patrão. Com um casal gostoso destes, “A Empregada” pisa fundo nas cenas de sexo remetendo aos thrillers dos anos 1980 e 1990 sem muitos pudores. 

Curioso como esta força de “A Empregada” acaba por cair quando deveria justamente acontecer o oposto a partir da virada da trama. O filme acaba por adotar um tom mais comedido no cinismo em prol de um discurso pertinente sobre o alerta de que a violência contra as mulheres pode vir de quem menos se espera, a manipulação psicológica e da falta de apoio às vítimas em relação às denúncias. Com isso, apesar da importância social inegável, o suspense perde aquilo que trazia de mais diferente e adota uma linha mais trivial. 

Feig, pelo menos, aproveita o gancho da cena final para jogar com uma possibilidade de futuros filmes a partir de uma abordagem repleta de cinismo. De um ponto de partida absolutamente medíocre como o livro de Freida McFadden, “A Empregada” consegue ser uma grata surpresa pela capacidade de rir de si mesmo.