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No meio da luta final contra o Devorador de Mentes, monstro gigantesco e feio de doer, Robin (Maya Hawke) faz uma daquelas tiradas pop habituais de “Stranger Things” ao comparar o bicho com Godzilla. Sem querer, a piadinha resume a reta final da temporada de despedida da série dos irmãos Duffer: o desfecho aposta na grandiosidade épica de ritmo acelerado para conferir urgência a tudo o que acontece, tentando não deixar os queridos personagens em segundo plano. Pode não dar certo sempre, mas, também impossível cair no tédio.  

Não é para menos: “Stranger Things” se tornou a série mais importante da Netflix desde “House of Cards”. Se a obra política estrelada por Kevin Spacey serviu para mostrar que o streaming era capaz de fazer produções conceituadas tal qual a HBO, a fantasia dos Duffer serviu para engajar um público mais jovem e nerd, capaz de gerar fenômenos culturais impossíveis de saírem da cabeça das pessoas pelo tanto que são comentados e especulados com mil teorias. E assim foi feito com um grupo de atores fofinhos, estética nostálgica dos anos 1980 e citações à cultura pop para dar e vender. 

Com tamanha expectativa natural para a última temporada acrescida pelo hiato de três anos em relação ao quarto ano, “Stranger Things” liga a quinta marcha para investir nas artimanhas de Vecna (Jamie Campbell Bower) para conseguir subjugar todo o planeta, enquanto a turma de Hawkins luta para impedir isso. Dar maior espaço para compreender como Henry/Quequeé se torna o vilão acaba sendo a saída narrativa para tanto, o que permite aos Duffers jogar com o terror e na violência com sangue para todos os lados, inclusive, com crianças envolvidas, uma coragem em tempos tão puritanos. 

Na ação, a série se sai razoavelmente bem ao trazer momentos realmente tensos como a sala gosmenta prestes a engolir Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton), a entrada de Onze no Devorador de Mentes e a explosão da bomba no Mundo Invertido ao som de ‘Purple Rain’ em sequências visualmente belíssimas. Por outro lado, são pontos baixos a pouca utilização da lendária Linda Hamilton e o CGI da dimensão onde ocorre a batalha final parece mais saído de uma ficção científica medíocre da maioria dos filmes do diretor Paul W.S Anderson, conhecido pela série “Resident Evil” e do recente “Nas Terras Perdidas”.  

Se a tensão da ação acaba por ser bem construída, as relações entre certos núcleos deixam uma sensação de esgotamento do que os Duffers poderiam fazer. Ao longo da temporada, as cutucadas entre Dustin e Steve duram tempo demais até chegar onde se desejava, sendo salva apenas pelos talentosos e carismáticos Gaten Matarazzo e Joe Keery. Já a preocupação de Hopper (David Harbour) com Onze/Jane (Millie Bobby Brown) está mais do que saturada por ser algo tão recorrente ao longo dos cinco anos sem a capacidade de trazer algo realmente novo à dinâmica. A protagonista, aliás, foi sacrificada pela carga excessiva com que se deu importância à mitologia daquele universo, o que exige de Brown uma dramaticidade além do que a fantasia pede, tornando Onze cansativa só de ver. 

Ainda assim, a última temporada de “Stranger Things” revela boas surpresas com determinados personagens na reta final, seja com o destino de Nancy, fugindo do óbvio da disputa entre Jonathan e Steve, e ainda com o fofo casal Lucas (Caleb Mclaughlin) e Max (Sadie Sink). Não há dúvidas, entretanto, que o ponto alto seja realmente Will: a revelação de que não gostava de meninas perante todos os amigos e familiares vai além de um momento para corresponder a expectativa dos fãs ao criar um momento importante sobre aceitação e superação de medos, base fundamental da trama. Pode não ser o discurso militante que muitos esperavam, mas, certamente de uma eficiência tanto narrativa quanto de mensagem para o público jovem, além de brindar o talentoso Noah Schnapp, grande surpresa deste ano decisivo. 

No momento final, os Duffers criam um mistério sobre o destino de Onze/June: morreu ou não morreu? Teve ou não a colaboração da irmã para escapar? Sinceramente, pouco importa: não acredito que a mitologia do Devorador de Mentes e Vecna, os medos trazidos pelo Mundo Invertido ou os superpoderes da protagonista e de Will fossem o que realmente interessavam em “Stranger Things”. A chave para o sucesso da série da Netflix é aquilo que Mike (Finn Wolfhard) enxerga na mesa de tabuleiro na cena final: um bando de crianças fofas, empolgadas, falantes, com roupas coloridas e suas teses sobre RPG e cultura pop.