Sabe aquele artista que você acompanhou o trabalho enquanto tanto ele quanto você iam crescendo e se tornando adultos? Digamos que tenho esse tipo de relação com Anna Kendrick. Apesar de ser um par de anos mais madura que eu, tenho a sensação de que nos víamos ao menos uma vez por ano no cinema conforme vinham seus lançamentos. “A Garota da Vez” marca a estreia de Kendrick na direção, arriscando-se em um filme que flerta entre o thriller e o true crime. O resultado não é tão animador, mas consegue despertar questionamentos e ponderações interessantes.
Inspirado em um caso real, o roteiro de Ian McDonald nos encaminha em duas direções. De um lado, acompanhamos Sheryl (Kendrick), uma aspirante a atriz nos anos 1970 que aceita participar de um programa de namoro — sim, no maior estilo ‘Vai Dar Namoro’ —, do outro, Rodney Alcala (Daniel Zovatto), um assassino em série de mulheres. As duas histórias andam em paralelo até que Rodney e Sheryl se cruzam na gravação do programa. A escolha de contar a narrativa dessa forma tem seus acertos, mas acaba por não funcionar em sua totalidade.
Diferentemente do recente “Maníaco do Parque”, há uma preocupação em dar voz às vítimas; mais do que isso em mostrar como as mulheres eram vistas nesse período e a valorização (ou não) de sua palavra. Nesse caminho, as personagens femininas são descredibilizadas, silenciadas, tratadas de forma satírica e como objeto de desejo, feitas para serem um rostinho bonito e sem pensamentos. Kendrick constrói “A Garota da Vez” colocando-as em evidência, no centro da discussão, deixando nítido o aborrecimento passado pelas personagens e como estas até podem deixar passar serem colocadas em posição de fragilidade, mas não sem lutar ou evidenciar como não aceitam esse lugar. Prova disso é como Sheryl enfrenta Rodney e Laura (Nicolette Robinson) reage diante da inabilidade policial.
A construção escolhida estende a crítica feita naquele tempo até aos nossos dias. Afinal, diante do silenciamento de Sheryl, Laura e tantas outras mulheres mostradas em “A Garota da Vez” vários questionamentos suscitam. Por quê a voz feminina é encarada com desdém? O que é preciso fazer para que possamos alcançar o sucesso ou as coisas começarem a dar certo? O que uma mulher tem que estar disposta a encarar para que alcance ao menos a dignidade em sua jornada? O roteiro nos apresenta situações daquele período, mas que não deixam de refletir em atitudes, conflitos e similaridades da contemporaneidade. Kendrick acerta nessa mensagem.
De forma semelhante, a diretora também é assertiva na regência das cenas de tensão e desconforto, transmitindo essas sensações para o público com uma pitada daquele humor que não te deixa à vontade, mas também não é indiferente. Há o uso de planos criativos e o predomínio do laranja e vermelho em contraponto às sombras, nos remetendo a uma atmosfera dos anos 70, mas que acresce ao estranhamento e ao incômodo que Rodney deixa. Vale mencionar ainda o trabalho de corpo de Daniel Zovatto, o ator consegue passar os trejeitos carismáticos e ao mesmo tempo assustadores de um homem que observa, ouve as mulheres e por isso as atrai para sua armadilha. Um trabalho semelhante e diferente ao que fizera em “Estação Onze”, como o líder carismático da dissidência.
É uma pena, no entanto, que, apesar de tantos acertos, falte uma unidade fílmica a “A Garota da Vez”. Ao olhar para o filme por completo é como se as duas narrativas apresentadas não conseguissem ser amarradas, faltando uma compreensão maior de como isso poderia acontecer. Em determinado momento, fiquei me indagando qual a importância da personagem de Kendrick para a trama, uma vez que a jornada de Rodney e seus flashbacks despertavam maior curiosidade. Parte disso se deve a montagem fragilizada que vai diluindo a temática da obra enquanto tenta mesclar as duas tramas, fazendo com que a história, de forma geral, perca sua força quando chega ao último bloco.
Enquanto diretora, acredito que Kendrick traz um olhar seguro para ambientação de cenas específicas, no entanto, “A Garota da Vez” acaba caindo no lugar-comum, tendo como único diferencial o fato de um serial killer participar de um programa televisivo de namoro. Fora isso, temos arcos que não se conectam, nem mesmo quando aparecem no mesmo quadro.














