Quando li a sinopse de “A Lista da Minha Vida”, novo filme estrelado por Sofia Carson na Netflix, me lembrei de “As Regras do Amor”, comédia romântica estrelada por um jovem Patrick Dempsey sobre uma mãe que falece e deixa uma lista de desejos — escrita pela sua filha — para que esta cumpra e, de quebra, encontre o amor verdadeiro (naquele período, hoje dizemos apenas felicidade, sem a necessidade do relacionamento). Adam Brooks (Bridget Jones: No Limite da Razão) parece tomar esse mesmo plot para construir essa história, mas, diferentemente do filme de 2003, nos entrega uma produção singela sobre o processo de luto.
Acompanhamos Alex (Carson), uma jovem que precisa cumprir uma lista que escreveu aos 13 anos para que possa receber a herança deixada pela mãe. Há muitas semelhanças com “As Regras do Amor”, no entanto, a narrativa consegue se aprofundar em questões familiares para lidar com a perda de alguém querido e ainda ser um produto do seu tempo, uma vez que várias direções tomadas soam muito como uma lista de desejos cumprida pelos genz/millenials. Nesse sentido, acho curioso como esse tipo de produção é interessante de se acompanhar e nos faz torcer pelo mocinho, impreterivelmente. Devo dizer que a vibe limbo entre millenial e genz de Carson também contribui para esta torcida.
Brooks cria uma narrativa que passeia entre drama, romance e um filme de autodescoberta. Essa mistura pode ser notada desde o primeiro momento, por exemplo, na complexa relação mãe-filha. Embora Elizabeth (Connie Britton) faleça ainda na parte inicial do longa, seu vínculo com Alex é o principal fio condutor de “A Lista da Minha Vida”. A forma como a protagonista lida com a ausência física da mãe, enquanto se acostuma a uma existência em que ela não esteja mais tangencialmente presente, é tocante. Lembro de uma entrevista dada por Beth Goulart em que afirma que uma filha se sente incompleta após a morte de sua mãe. O roteiro de Brooks mostra isso de forma empírica, o que torna linhas como a do desejo de ter a cama da mãe para ainda sentir seu cheiro entre os lençóis e os acordes de Clair de Lune emocionantes.
Em paralelo, o roteiro apresenta ainda como os filhos homens se sentem de fora desse vínculo maternal feminino. E como, para alguns, o distanciamento da irmã torna-se uma maneira de enfrentar as frustrações maternas. A narrativa não se aprofunda nisso, mas deixa seus vestígios pelo caminho. Outro assunto também explorado é a relação entre pai e filha e a importância e o peso de se compreender que o pai é aquele que está ao seu lado enquanto você cresce e aprende a existir no mundo ao seu redor. Embora em alguns momentos deslocado, a escolha de discutir a paternidade é uma maneira da produção expor como o luto pode afetar as relações frágeis daqueles que permanecem.
Vale ressaltar o quanto “A Lista da Minha Vida” é eficaz em discutir o processo do luto e acerta ao concentrar o amadurecimento de sua protagonista — uma jovem adulta sem direção — no seu relacionamento com a mãe, sua busca por se encaixar na profissão que a traumatizou, a procura por seu progenitor, acumular experiências de existência e então experimentar uma história de amor, não sendo este o objetivo de vida de Alex, como era da personagem central de Lucky 7. Por isso, o desenvolvimento de Brad (Kyle Allen) também é um acerto. Sua figura não surge em cena sem explicação ou de forma forçada, mas como alguém com quem Alex pode contar e ser um suporte nesse processo de encontrar a si mesma.
O que torna “A Lista da Minha Vida” mais interessante ainda é o quanto ele bebe das comédias dos anos 2000, com um dilema bem trabalhado e explorado, uma mocinha carismática que vive sua vida entre equívocos e acertos, e um romance que não é a centralidade da obra. Ainda que arranque algumas lágrimas dos mais emotivos, é um filme que vale a pena assistir.












