“A História de Souleymane” é uma ficção que escancara uma realidade mundial: ser imigrante ilegal e/ou refugiado político. Há diversas questões que permeiam a experiência de sair da sua pátria-mãe para uma nação diferente que, certamente, o verá como o Outro, aquele ser menor, inferiorizado, clandestino e usurpador. E essas palavras não são necessariamente minhas, mas sim o que já ouvi por Manaus afora acerca dos refugiados haitianos e venezuelanos, por exemplo.
Pois bem, Souleymane é um jovem negro da Guiné que se refugia na França em busca de um novo lar e esperança de um futuro melhor. Ilegal no país, ele vive em um abrigo de refugiados com hora para entrar e sair. Nesse meio tempo, entre dia e noite, trabalha como entregador, uma espécie de iFood, com sua inseparável bicicleta e o celular, os instrumentos de seu sustento. Porém, como está ilegal, o perfil está no nome de outra pessoa, outro imigrante legalizado, que recebe os dividendos, mas não os repassa para ele. A tensão só aumenta, pois, dali a três dias será a sua entrevista para legalizar a situação no país.
O diretor Boris Lojkine trabalha em estilo documental para mostrar a situação de Souleymane e vários iguais a ele, em busca da sua dignidade humana, um princípio básico dos Direitos Humanos, negado a esses sujeitos. E o contraponto de como são tratados pelos franceses em suas locações privilegiadas, que não os enxergam como pessoas. No mundo capitalista, em que tempo é dinheiro e ele tem hora para voltar para o abrigo, chama a atenção Lojkine ao mostrar como os percalços realmente são difíceis, como quando o protagonista vai buscar uma refeição para um cliente em um restaurante lotado e o chef não tem nada pronto, e o tempo extrapola, ou quando é atropelado e a cliente não aceita a refeição por conta da sacola amassada. Trivialidades, infelizmente corriqueiras em uma função de sobrevivência como esta.
Contudo, Souleymane em nenhum momento se coloca como vítima. Ele questiona, briga, levanta a voz como uma espécie de autenticação do seu corpo em um lugar estrangeiro, sim, mas como direito à vida como qualquer outro. A história de “A História de Souleymane” se confunde com seu protagonista, o ator Abou Sangaré, de apenas 23 anos, também vindo da Guiné para a França ilegalmente em busca de uma vida melhor e de um tratamento para a sua mãe. A assimilação das histórias faz com que Abou interprete a si mesmo e soe muito natural; sua força e tensão estão impregnadas no seu corpo. Merecidamente, vencedor do Prêmio César 2025 de Ator Revelação e Prix Un Certain Regard em Cannes 2024.
Premiado em Cannes e o grande vencedor do César com cinco prêmios, o longa de Lojkine também revela os capitães do mato dos novos tempos na exploração da mão de obra de imigrantes ilegais, que têm o básico para sua sobrevivência retirado, como seus documentos. Embora cansativo, “A História de Souleymane” é um filme, sobretudo, político. Nesse lugar do outro, enxergado pela branquitude como nada. Um momento de grande impacto é a cena da entrevista, onde sentimos toda a carga entre o entrevistado e a entrevistadora (Nina Meurisse, César de Atriz Coadjuvante).
Algum tempo atrás, fiz uma crítica do filme Limbo, que coloca os imigrantes nesse lugar de ostracismo e humilhação. E, no momento em que Trump tem feito o que tem feito com os imigrantes nos EUA, filmes como A História de Souleymane são mais que um alerta, mas um olhar humanizado sobre o outro.













