O que é um road movie? Bem, é quando a narrativa gira em torno de uma cruzada física dentro de um ou vários territórios, na qual os personagens enfrentam desafios e transformações ao longo do caminho. Em “A Melhor Mãe do Mundo”, mais recente longa de Anna Muylaert, essa jornada percorre a cidade de São Paulo, mas, acima de tudo, as camadas mais íntimas de uma mulher em busca não apenas de resgatar os filhos, mas de reencontrar a si mesma.

Logo na abertura, assistimos a uma mulher registrar um boletim de ocorrência para violência doméstica, sendo avisada de que uma vez feito, não há volta. Ela consente. Essa mulher é a catadora de recicláveis Maria da Graça, ou simplesmente ‘Gal’ – assim como a cantora. Ao sair da delegacia, ela parte em busca de seus filhos, Benin e Rihanna – assim como a cantora -, e embarca em uma desventura urbana, conduzindo o espectador por uma série de encontros e reencontros que misturam perigo, acolhimento e autodescoberta.

Muylaert aqui tem a oportunidade de criar o seu próprio ‘À Procura da Felicidade’ (2006), com direito a chafariz transformado em parque aquático e carroça transmutada em barraca de acampamento. Carroça, aliás, uma das personagens principais do longa. É nela que Gal atravessa a enorme selva de pedra denominada São Paulo, carregando duas crianças nas costas e correndo em meio ao trânsito caótico. Vemos aqui o porquê dela ser a intitulada ‘mulher mais forte do mundo’. A partir do momento em que denunciou seu agressor, não há mais nada a se temer. Gal lida com toda e qualquer adversidade que apareça pela frente, e o mais impressionante, de forma lúdica. É admirável como a personagem, mesmo na pior das situações, encontra forças para proporcionar uma memória agradável às crias. 

E Gal passa por muitas provações, de não ter o que dar de comer aos filhos ao próprio apagamento como mulher – numa cena sutil, mas particularmente forte, de estar suja de menstruação e sem poder arcar com um mísero absorvente. E são nessas adversidades que Shirley Cruz brilha mais que Will Smith: é palpável o amor que ela tem por aquelas crianças, mas também a pontinha de amor próprio que ali existe, mas que ainda não floresceu totalmente e que talvez ainda nem saiba que existe. Mais do que um retrato de amor de mãe, é um retrato íntimo. Não apenas de Gal, mas das mulheres brasileiras – em especial as mães pretas e solo, e as batalhas diárias para estar em conformidade com uma sociedade que apenas aponta e massacra, e ainda assim terem a capacidade de enxergarem a si próprias. Aqui está tudo nos mínimos detalhes.

O clímax chega quando finalmente vemos o algoz da protagonista: Leandro, vivido por Seu Jorge, reaparece na casa de sua prima, seu destino final após cruzar São Paulo, e tudo graças ao cunhado inconveniente de Gal, apontando o pacto silencioso de cumplicidade entre os homens, incapazes de guardar um segredo ou proteger uma vida. Neste momento, vemos os abusos pelo qual Gal passava, o marido aparentemente dócil, mas que muda de personalidade bruscamente dependo de suas necessidades e se elas serão atendidas por quem ele julga ser apenas sua serviçal, ou melhor, mulher. Ainda que a tensão e o medo sejam visíveis, Gal ainda considera voltar, com o apoio de quem está ao seu redor. É o retrato claro de uma sociedade que normaliza e repete ciclos torturantes.

Em uma das cenas mais potentes de “A Melhor Mãe do Mundo”, após ser confrontada pelo marido, Gal se tranca no banheiro e se maquia. Esse gesto, aparentemente banal, transforma-se em metáfora visual: é o ato de vestir uma armadura, reafirmar sua autoestima e compor a máscara necessária para encarar, ao mesmo tempo, o maior amor e o maior medo de sua vida. Muylaert utiliza aqui o detalhe como catalisador de significado, mostrando que resistência também se constrói nos pequenos gestos. Então, já cansada de limpar a bagunça e de ouvir algo que vira uma chave em sua mente, Gal larga tudo outra vez, e dessa vez, pra sempre. 

E quem está lá para acolher, se não outra mulher? É no espaço coletivo, longe do conforto e das certezas, que Gal encontra uma nova forma de pertencimento — e, ironicamente, o amparo que antes negaria a si mesma. Muylaert conduz seu road movie com a precisão de quem entende que o caminho mais importante não é o que se percorre no asfalto, mas o que se percorre dentro de si. A jornada culmina em uma cena que sintetiza o filme: sua filha mais velha, já capaz de testemunhar toda a jornada que as levou até ali, diz à mãe: “Ele se acha forte, mas você é mais forte ainda. Você é a melhor mãe do mundo”. Ao som de Maria Maria, de Milton Nascimento, o longa encerra não com a vitória absoluta, mas com a afirmação de que, mesmo ferida, Gal segue de pé, e dessa vez, sabendo dar valor a si mesma.