Quem explica os caminhos da mente? A mera imagem de um catador na areia em “A Praia do Fim do Mundo” bastou para que eu me pegasse pensando em “In Water”, de Hong Sang-soo. Os dois filmes não poderiam estar mais distantes. O cinema de Hong é todo instinto; seu estilo fluido e improvisacional responde ao que acontece no calor do momento com seus colaboradores.

Já Petrus Cariry é puro rigor formal. Em “Mais Pesado É o Mundo”, seu longa anterior, a mistura de miserabilismo cinematográfico e expressionismo controlado muito me impressionou. Aqui, é o preto e branco que dá a tônica: é um filme menor, íntimo e sufocante — mas também sufocado.

Mãe e filha esperam pelo fim em uma pousada pouco a pouco arruinada pela maré crescente. O prenúncio do apocalipse já está presente na primeira onda que ouvimos. Por isso o sufocamento, não só porque as personagens não têm para onde ir, mas porque o próprio Cariry não sabe muito bem o que fazer com suas imagens.

É como se ele tivesse encontrado primeiro a locação, que é fantástica, antes de decidir que filme fazer. Por sorte, Marcélia Cartaxo segura as pontas como a velha matriarca. Se, há alguns meses atrás, ela não pôde salvar o bobo “Lispectorante” do fracasso, sua presença aqui é bem mais marcante, embora menor. Bastam o seu perfil aquino e seus cabelos desgrenhados para que toda uma dimensão sinistra seja sugerida pela mulher.

Mas quando Cariry se aproxima do horror, é apenas de forma abstrata, conceitual, sem que nenhuma imagem sugira algum poder duradouro. O filme quer mostrar podridão e decadência, mas parece curiosamente desinteressado em penetrar as ruínas mais a fundo. Apesar de toda a ressaca em cena, “A Praia do Fim do Mundo” é um grande marasmo.