Na introdução de “Ana, En Passant”, a avó da protagonista Ana ensina a ela para que servem os mapas e afirma que ela mesma é um mapa no espaço e no tempo. Conforme o longa avança, vimos que o próprio filme também, a seu modo, desenha um mapa no espaço e tempo que interliga duas mulheres de contextos diferentes por laços invisíveis (ou nem tanto) do acaso e da ancestralidade.
A animação dirigida e roteirizada por Fernanda Salgado parte de uma jovem mulher negra franco-brasileira, a Ana do título, em meio ao luto pela morte da avó que lhe criou na França. Deixada com uma carta misteriosa da avó e a chave de um apartamento que nem sabia que existia nas mãos, ela parte em uma jornada inesperada rumo a Belo Horizonte. Uma vez lá, encontra o apartamento ocupado por Alice, outra mulher negra, grávida, que carrega o mesmo nome da sua avó e é tão parecida com ela mesma que ambas são até confundidas como gêmeas.
As semelhanças são inegáveis, e as mulheres se unem quase que de imediato em uma relação de apoio mútuo, enquanto Ana tenta desvendar o motivo de ter sido levada ao Brasil apenas com a mensagem cifrada da avó que afirma que as cartas vão guiá-la. A ideia de um mapa e um percurso que vai sendo construído aos poucos se reflete na animação em si, que mistura estilos como um grande mural de colagens em construção ao longo de toda a projeção.
São elementos 2D, stop motion e diferentes texturas e recortes. Quando uma fruta é retirada por Ana em uma feira, por exemplo, o lugar onde ela estava vira um papelão. A metáfora da carta que deve guiá-la se torna a parede do quarto da Alice, que vira um envelope de carta em si. Quando a Torre Eiffel é mencionada como o ponto favorito da avó, a mesma aparece como um cartão-postal colado por cima da tela. Enquanto isso, os personagens em rotoscopia são claramente inspirados nos seus intérpretes reais, como é o caso da avó Alice, que assume as feições e voz de Zezé Motta, e o carteiro vizinho, que tem até o mesmo andar característico do querido Carlos Francisco.
A fluidez da animação também dá lugar a várias incursões poéticas visuais, que reforçam o tom de realismo fantástico da narrativa, como copos d’água que se transformam em oceano ou uma bonita cena em que Alice nada e vira um grande peixe nas águas. É no movimento orquestrado desses diferentes estilos de animação que “Ana, En Passant” encontra o seu melhor.
A narrativa, no entanto, acaba não sendo tão fluída quanto seu visual: o tom de mistério em torno da ligação entre Ana e Alice parece ir ficando sem saída a dado momento, e a investigação da protagonista vai perdendo o fôlego e quebrando o ritmo do longa.
Independentemente das respostas que Ana encontra ou não, porém, há um subtexto forte, claro, em torno da ancestralidade e da eterna busca pelas nossas raízes. Tanto Ana quanto Alice são duas mulheres negras lidando com o desconhecimento de muito dos seus próprios passados e com desafios que passam pelo recorte de gênero e raça. Algo maior parece uni-las, ainda que elas não entendam exatamente por que, e é esse mapa que “Ana, En Passant” vai cartografando diante dos nossos olhos de maneira muito singela.
“Ana, En Passant” integra a Mostra Competitiva de Longas-Metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.















