“A Terra de Meu Pai” traz a jornada de um pai e uma filha pelo interior da Alemanha pós-guerra. O pai é Thomas Mann (Hanns Zischler), autor de A Montanha Mágica e Morte em Veneza, acompanhado de sua filha Erika (Sandra Huller).  O objetivo da viagem é deixado evidente para nós, tanto aquele conhecido publicamente, como o que acompanha os personagens no íntimo: Mann receber o prêmio Goethe 20 anos após ter recebido o Nobel de literatura; a premiação é um símbolo de recomeço e reconciliação com a Alemanha.

Pawlikowski usa a situação para evidenciar aquilo que é mais caro em seu cinema: os relacionamentos construídos ao longo de uma breve jornada. Dessa forma, o cineasta polonês estabelece os dois personagens principais nos primeiro momento da narrativa para que possamos adentrar na complexidade dessa relação marcada pelo narcisismo, compreensão e o desejo de fazer dar certo.

Mann como um escritor de sucesso, que fora exilado de seu país durante a segunda guerra mundial é uma figura forte e inabalável. Cabendo a Erika ser o coração da trama. Sandra Huller faz um trabalho diferente do que vimos nos últimos anos em “Toni Erdmann”, “Zona de interesse” e “Anatomia de uma queda”; a atriz alemã entrega uma personagem extremamente vulnerável. Há uma fragilidade notável em seus olhos, nos movimentos sutis dos lábios e no corpo curvado, tímido. Erika, como filha de um renomado escritor, sabe que seu lugar é um passo atrás da estrela e está resignada a ele se isso é o que lhe cabe para que a família continue “intacta”.

Assim, suas explosões acontecem longe do astro, quando precisa defendê-lo de um artista babaca ou trancada dentro de seu quarto com a porta que dá acesso ao pai fechada e a janela em que o resto do mundo está, segue aberta. Para o pai, ela se molda a ser o que ele necessita, para o mundo, ela é a leoa capaz de qualquer coisa por ele. Mas e quando essa barreira precisa ser levantada contra outro bem de valor para si?

É a partir dessa complexidade que o roteiro, também assinado por Pawlikowski, se baseia para discutir os meandros da relação entre pai e filha, utilizando a figura fantasmagórica de Klaus (o sempre excelente August Diehl) como a variável que modifica esse vínculo. Visualmente, isso se apresenta por meio da Alemanha deteriorada por onde Mann e Erika passam; um país que vira a glória e agora é permeado por destruição em cada esquina.

Por outro lado, enquanto a ambientação evoca o ritmo que caminha o relacionamento familiar, a câmera de Lukas Zal – parceiro de Pawlikowski em seus projetos anteriores e o diretor de fotografia de Hamnet – mostra o quanto a decisão de voltar a Alemanha não é feliz para nenhum dos personagens, que estão sempre diminutos diante da grandiosidade arquitetônica em decomposição. A mise-en-scène também é importante para compreendermos a centralidade de Erika na narrativa, enquanto Mann está sempre distante, ao fundo, Huller é quem o nosso olhar acompanha e é posta no centro da imagem pelo cineasta e o fotógrafo.

Penso, no entanto, que o momento de maior crescimento de A Terra de Meu Pai é quando ele assume a discussão sobre o luto, nos permitindo contemplar como cada pessoa lida de forma diferente com esse sentimento e, mais ainda, refletir sobre o que é realmente a imortalidade. Como é possível olhar para o mundo diante da ausência que é sentida e não é notada? O que realmente vale a pena quando alguém tão importante para você falece?

Todos os caminhos traçados por pai e filha os levam a essa condição que é coletiva e ao mesmo tempo tão particular. Ninguém permanece o mesmo depois que alguém próximo morre, mas como julgar a dor do outro se ninguém sofre igual? Ao que se apegar quando nada mais faz sentido? Pawlikowski não quer responder essas perguntas, mas nos fazer navegar por elas. O discurso de Mann para alemães e americanos não vai trazer a paz mundial, sua literatura não vai mudar o que pensam sobre si; mas não invalida como o escritor lida com sua perda. Contudo é importante para que reflitamos sobre a imortalidade.

Em um dos sonetos mais famosos de Shakespeare, ele afirma que seus versos farão com que a memória do seu amor permaneça vivo pelo tempo que suas palavras durarem. Tenho a sensação que é isso que Mann faz ao se preocupar com seu discurso, com a importância do conhecimento sobre seus livros e palavras eternizadas neles e por eles. Por outro lado, Erika prova como tudo isso é extremamente frágil. Pawlikowiski mais uma vez utiliza a arquitetura como metáfora da dicotomia acerca do que pensamos ser invariável e eterno.

A personagem de Huller caminha por um jardim de estátuas de notáveis – tal qual seu pai – que estão deterioradas, algumas em pedaços, cobertas por lodo; curiosamente, esse é o mesmo jardim em que pretendem eternizar seu pai junto as outras peças. Um paralelo evidente entre o pai que só será lembrado enquanto suas palavras ressoarem e o falecimento de Klaus que será eternamente uma sombra na vida da família. E na balança, a situação de Klaus tem um peso muito mais sólido do que qualquer escultura. Nesse momento, o que é realmente infinito são os instantes em que nos permitimos sentar, dar a mão a quem amamos enquanto ouvimos o som do piano ao longe. Isso é a verdadeira eternidade e a jornada pela terra dos nossos amados.

A Terra de Meu Pai prova mais uma vez o talento de Pawel Pawlikowski de contar histórias nas quais a jornada é o pretexto perfeito para que os relacionamentos sejam reavaliados e aprofundados em novas camadas, ainda não apresentadas. As vezes, para alcançar esse ponto, é preciso fugir do caminho conhecido e se deixar guiar pela música em um prédio que está em processo de deterioração, tal qual as barreiras enfrentadas por nós.