Podemos impor nossa dor aos outros? Até onde devemos nos queixar e até que ponto devemos apenas engolir em seco e seguir em frente? Nossa dor é assim tão especial? Ou será que esse tipo de pergunta já revela por si só a ideia cínica de que não podemos fazer nada pelas desgraças do mundo, de que devemos nos resignar diante da dor, a nossa e a alheia?
Muitas questões, é. “A Verdadeira Dor” responde a alguma delas? Em parte. Não é recomendável pensar demais nas tragédias cotidianas; ser uma esponja emocional é impraticável e só pode resultar em uma coisa: a paralisia. E não se pode fazer muita coisa nesse estado.
É justamente nessa paralisia emocional que Benji (Kieran Culkin) se encontra. Hipersensível, ele não consegue esconder o incômodo ao viajar de primeira classe em um trem polonês. Como posso simplesmente curtir essa viagem se meus ancestrais judeus foram levados por esses mesmos trilhos aos campos de concentração?
Mas Benji é também brutalmente honesto, o que significa que sua sinceridade desconhece noções de polidez social. Se algo o incomoda, ele faz questão de se certificar de que todos no recinto saibam disso. Ele é como um hidrante encharcando a todos com seu sofrimento, atirando sua dor para todos os lados. Ele ilumina o ambiente para depois cagar nele, como um personagem sabiamente descreve.
Sua salvação é ser impossivelmente charmoso e engraçado. É, enfim, um baita personagem, um que Kieran Culkin habita por completo. O fato de eu sequer ter mencionado seu co-protagonista, Jesse Eisenberg, não deve indicar que este último não está à sua altura, mas sim que Culkin é uma presença absolutamente incandescente em tela. E não se pode ficar na frente do sol.
Eisenberg, que aqui estreia como cineasta, interpreta David. David e Benji são primos e estão em uma excursão pela Polônia. A ideia é conhecer um pouco mais sobre suas raízes judaicas (“uma excursão de dor”, como o guia do grupo coloca) e visitar o local onde sua falecida avó morou. É também uma chance do workaholic David se reconectar com o fracassado Benji.
“A Verdadeira Dor” adquire, portanto, ares de road movie, mas um que toma caminhos árduos, oblíquos e pouco convencionais. Ele deixa de lado as saídas mais óbvias e se lança na busca de alguma imagem da grande confusão que é a experiência humana. Surpreende então a maturidade de Eisenberg enquanto artista. O ator se revela um diretor competente, sim, mas seu verdadeiro trunfo está no roteiro, que assina sozinho. Seu texto revela muito sobre os personagens com pouquíssimas informações. Suas piadas são cortantes. Seus momentos de drama são tocantes, mas nunca piegas.
É, enfim, o trabalho de alguém que tem algo a dizer; alguém que sabe as perguntas que quer fazer, mas que não encontrou as respostas ainda, e que é gentil o suficiente para nos convidar a essa busca.













