Os diretores e diretoras preocupados em registrar o genocídio palestino precisam responder a uma mesma pergunta: como criar uma imagem adequada da barbárie — e o que diabos significa “adequada” nesse contexto? Ano passado, os palestinos por trás de “Sem Chão“, que contou ainda com ativistas israelenses na direção, deram uma resposta simples: vá para a linha de frente e leve sua câmera. 

Que o filme fosse um soco no estômago já era de se esperar, mas o mais inacreditável é que o grupo tenha encontrado imagens verdadeiramente cinematográficas em meio à tragédia — desde a pungente composição que coloca um tanque israelense no fundo do quadro, com um palestino deitado em primeiro plano, até o registro da imensidão e beleza do seu lar no deserto, alvo de uma destruição cruel e calculada. 

“A Voz de Hind Rajab” escolhe responder a pergunta de outro modo, um que é um tanto quanto tortuoso. O que fazemos com nossos mortos? Guardamos seu direito à privacidade respeitosamente? Ou projetamos seus suspiros finais em Dolby 5.1 numa sala de cinema? Qualquer pessoa em sã consciência escolheria a primeira opção; mas e se, ao escancararmos essa que talvez seja a mais íntima e particular das experiências, pudéssemos denunciar um regime genocida? A profanação estaria perdoada?

Após uma evacuação forçada em Gaza, uma família é alvejada dentro de uma carro pelo exército israelense. Operadores de um centro de emergências palestino conseguem entrar em contato com Hind Rajab, de 6 anos de idade, única sobrevivente do ataque, escondida entre os cadáveres de seus parentes. Essa história é real, e as verdadeiras gravações telefônicas, registradas antes que a menina fosse assassinada pelas forças israelenses, constituem o cerne do longa. 

Não se trata, entretanto, de um documentário. Embora as gravações utilizadas no filme sejam verdadeiras, todo o resto é dramatizado. No fundo, trata-se de uma espécie de reconstituição com toda a cara de um episódio de “Linha Direta” — o que pode trazer alguns questionamentos à tona: onde termina a denúncia corajosa das atrocidades e onde começa a exploração do sofrimento alheio? 

Em suma, o que temos são atores pagos para interagir com uma morta. O saudoso André Bazin dizia que o que está no cerne da fotografia é a tentativa de embalsamar o tempo, “mumificar” os retratados. Já com o cinema, são outros quinhentos: não porque o filme não tenha o poder de preservar o passado, mas porque a imagem em movimento garante um acesso mais direto àquela realidade — uma realidade, por falta de palavra melhor, mais “real”. 

Sendo assim, com um pouquinho de esforço, poderíamos mesmo dizer que “A Voz de Hind Rajab” é um lembrete do que jamais deveria ter sido, e que o resquício material da menina — sua voz, registrada como uma série de zeros e uns num HD qualquer — é usado como o último sinal de sua existência. 

Isso tudo estaria muito bem colocado, mas não apagaria o fato de que há um quê de descuido na abordagem empregada; uma dissonância entre a representação cinematográfica, inevitavelmente artificial, e a dureza da realidade. É um descompasso presente nas interações entre os atores e a voz da menina, essa espécie de parceira de cena fantasmática. Por mais que se esforcem para chorar, parecerem aflitos e dizerem suas falas em sincronia perfeita com o áudio da criança, nunca nos esquecemos de que eles são apenas atores interpretando seus papéis, enquanto o sofrimento de Hind Rajab é bastante real. Chega a parecer mau gosto.

Afinal de contas, de quantos close-ups nos rostos chorosos dos atores, enquanto ouvem a pequena Hind Rajab descrevendo sua situação absolutamente terrível, realmente precisamos? Depois de um tempo, começa a parecer que a diretora tunisiana Kaouther Ben Hania quer mesmo esfregar nossa cara no sofrimento da menina para emprestar urgência ao seu filme, de forma bastante oportunista. 

Isso é acentuado pelo fato de o longa ser absolutamente desengonçado dramaticamente. Descobrimos as dificuldades burocráticas em garantir uma passagem segura para o resgate por meio de discussões entre Omar (Motaz Malhees), que está na linha com Hind, e Mahdi (Amer Hlehel), o coordenador da equipe. Um filme melhor conduzido colocaria os dois para se enfrentar enquanto agem; aqui, eles expressam seus pontos-de-vista por monólogos expositivos. Há até mesmo um momento em que Mahdi literalmente desenha para o espectador os problemas que a equipe enfrenta. 

Claro, há uma tolerância para os diálogos expositivos que todo espectador deve ter em um filme comum. Mas, dada a gravidade do tema, é essa discrepância entre a autenticidade almejada e o registro ficcional que incomoda. Os áudios de Hind parecem se tornar mera muleta para o projeto da diretora. Mesmo que suas intenções sejam boas, algo está muito errado com seu filme se, diante da tragédia que ele busca retratar, eu ainda assim me pego pensando no quão expositivos são seus diálogos.