Música, estrada e política

Essas três palavras descrevem bem o que Cao Guimarães busca em seu Amizade. A produção flerta entre videoarte, filme experimental e documentário afetivo, transbordando questões que inquietam o diretor e geram imagens responsáveis por conduzir o público à reflexão e à sensibilidade.

No primeiro momento, o diretor nos convida a embarcar em uma viagem de carro de três dias, saindo de Belo Horizonte em direção a Montevidéu. Acompanhado por Beto Magalhães — seu parceiro em A Alma do Osso, O Homem das Multidões, entre outros trabalhos —, os dias de viagem se transfiguram na própria odisseia do cineasta, que usa a jornada como subterfúgio para explorar temáticas como morte, política, espaço e memória. O resultado é uma produção egocêntrica que se apoia na alteridade de si da voz narrativa.

É iminente, no decorrer da trama, que as reflexões levantadas tratam de elementos que assombram o narrador ao longo do tempo. Ele utiliza a amizade como base e ponto de interseção entre as várias temáticas que sua busca por ponderações sobre a existência suscita. Nesse quesito, os relacionamentos citados soam, em alguns momentos, como régua comprobatória da visão do narrador, tornando Amizade um projeto que fala de si e do que sente para aqueles que lhe são próximos ou que possuem seu afeto e respeito.

Ainda assim, esses entrelaçamentos são cruciais para que a experiência afetiva alcance mais pessoas e as discussões suscitadas sejam menos fechadas em si mesmas. As imagens, por exemplo, vindas dos arquivos de gravações antigas do diretor, oferecem uma plasticidade e intimidade participativa. Em outras palavras, convidam você a navegar junto. Uma chamada que é referenciada na cena da casa e seu emparelhamento com o habitat natural da memória, no qual tempo e espaço se cruzam, ressignificando o que pertence e o que não pertence à reminiscência.

Todos esses elementos, contudo, atestam o quanto as discussões latentes em Amizade são ponderações ancoradas principalmente no recôndito da mente do cineasta. A sétima arte, neste caminho, torna-se o objeto que afunila o debate e os rastros de companheirismo, tão caros a esse filme. Por meio dele, Guimarães não apenas exerce sua profissão, como também encontra um propulsor de suas relações fraternais — uma vez que os amigos citados ainda estão conectados a alguma funcionalidade no set — e a familiaridade, que é um dos seus pontos-chave. Todos esses itens oferecem ao diretor um sentimento de estabilidade, estacionado no tempo e na luz aprisionados no fotograma, além de revelar quem são e o que não são.

Nessa perspectiva, a grande pergunta que se aloja no decorrer da narrativa é: “O que é amizade?”. Qual a mensagem que podemos tirar de toda a discussão levantada? O cineasta desnuda seus afetos, esboçando que gostar de alguém envolve uma resposta muito mais complexa do que um sintetizado “é isso”. São conexões, reinvenções, o avesso, o caleidoscópio de seres, a gratuidade dos versos e a ausência de porquês. Como definir aquilo que te seduz e te aproxima, ao mesmo tempo em que te faz subtrair-se ao ponto de abnegar-se?

Para mim, Amizade é um projeto plástico, experimental e envolto de afeto e carinho por parte daqueles que circundam e mergulham no universo de Cao Guimarães. É um convite, mas também uma declaração de amor. Afinal, ninguém viveria sem amigos.