O despertar da consciência do ser enquanto criança é um mistério intrigante e sedutor. Afinal, a beleza da existência se faz justamente dessas questões nunca respondidas, dando margem a infindáveis linhas de pensamento. O filósofo Jean Paul Sartre, por exemplo, assume que em nosso nascimento, já temos a responsabilidade de escolha, pois esta já virá junto da consciência e seremos reféns das nossas ações a partir dali. A animação belga A Pequena Amélie se utiliza desse princípio em que o início da infância de uma garotinha é construído com base no estímulo de suas percepções.

Com essa proposta, o filme conta a história de uma família belga que reside no Japão pós-guerra do ano de 1969, onde o casal espera pelo nascimento do terceiro filho, a garotinha Amélie. A chegada dela surge de maneira incomum: por dois anos, Amélie não fala, não anda, fica apenas estática em seu leito. Quando finalmente toma consciência e desperta, a menina se mostra aguçada, espirituosa e de imensa imaginação – o que causa espanto em todos. Logo, a relação da criança para com os elementos ao seu redor será essencial para possibilitar experiências únicas da infância, principalmente na relação com sua cuidadora Nishio-San.

Totalmente realizada em técnica 2D, a animação é deliciosamente cuidada em muitos tons. Tons estes que variam do pincelamento mais leve como mostrar as pálpebras de Amélie se abrindo ao mundo até o uso de cores pastéis em ambientes dos vales onde a história acontece. Outro ponto a se destacar é o uso predominante da cor verde que ocupa muito do design da narrativa, em especial, os olhos gigantes e esmeraldas da menina a capturar toda a nossa atenção. Em tempos onde o excesso do 3D opera nas animações, é ótimo um respiro como este nesse belíssimo trabalho 2D feito aqui.

Por meio disso, de imediato, temos a narração da protagonista invadindo a história e nos mostrando aspectos reflexivos sobre a própria natureza. Seria a menina uma divindade? “Deus é inabalável” brada Amélie. Em sua maneira de enxergar-se dentro da própria lucidez como algo supremo e poderoso, há o pensamento a se abrigar nisso. Pela narração, entendemos que mesmo em condição vegetativa de movimento, Amélie sabe da sua existência em si e do peso que será conhecer o mundo; retomar a questão da consciência de Sartre – outrora citada – , nos indica como a tomada de sentidos é uma forma, sobretudo, de sentença para o bem e para o mal.

Dessa partida, o roteiro promove uma história envolvente ao acompanharmos a visão de uma criança sobre o desenlace da vida. A narrativa assina caminhos filosóficos e de cunho poético quando compreende os dilemas da mente da protagonista consciente aos poucos do seu lugar no mundo e das primeiras experiências. A Pequena Amélie para além de seu eixo, consegue explorar temas como memória e perda tudo pelos olhar da menininha criando grandes reflexões.

Nesse limiar, a aproximação de Amélie e da cuidadora japonesa Nishio-San é o ponto mais forte dentre os personagens do filme. Sendo empregada da casa a partir de indicação da senhora proprietária, Nishio cria um laço repentino com a garotinha belga. Antes uma cuidadora da casa a dar atenção especial à criança, com o decorrer da narrativa, se molda uma relação genuína de amizade e vínculo entre as duas ao ponto de Amélie passar muito mais tempo junto da moça do que com a própria mãe. Os momentos de cumplicidade são únicos pois evidenciam a compreensão da pequena Amélie à maneira que Nishio a enxerga diante do mundo – algo muito questionado pela protagonista.

Por tamanho valor, A Pequena Amélie é lindo, forte e existencial. Nuances sobre o devir da consciência no início da infância se apresentam sem deixar de lado o toque doce e colorido da esperta garotinha Amélie, pois, mesmo com a chuva a cair, ainda existe um mundo florido por aí.