Há tragédias que deixam marcas profundas não apenas pelo número de vidas perdidas, mas pela forma como alteram a memória de uma sociedade. Em Manaus, a pandemia da Covid-19 não se resume aos gráficos que registram mais de 700 mil mortes no país. Ela permanece nas lembranças do colapso dos hospitais, da falta de oxigênio, dos cemitérios improvisados e da sensação de que a vida perdeu espaço diante de disputas políticas incapazes de enxergar a dimensão humana daquela crise. É desse lugar que Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira, encontra sua força ao refletir sobre como esses momentos permanecem na memória coletiva.

Em vez de organizar uma cronologia da pandemia, a diretora costura registros de arquivo com imagens e depoimentos captados durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid para construir um filme que deposita na montagem a responsabilidade de articular seu discurso. O sentido não nasce de uma narração que conduz o espectador, mas da relação entre imagens, falas e silêncios.

Essa escolha fica evidente quando Anatomia do Caos contrapõe imagens do cemitério de Manaus e de famílias acompanhando enterros coletivos durante o colapso sanitário às declarações do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, de que a cidade teria enfrentado apenas três dias de desabastecimento de oxigênio. Logo depois, o senador Eduardo Braga contesta essa versão ao lembrar que a crise se estendeu por semanas e custou inúmeras vidas. Dandara não precisa explicar a contradição. O choque entre o que se vê e o que se ouve já produz um significado que nenhuma dessas imagens alcançaria isoladamente.

Essa confiança na inteligência do espectador diferencia Anatomia do Caos de outros documentários políticos recentes. Ao acompanhar parte da CPI sem saber exatamente qual filme surgiria daqueles registros, Dandara permite que a própria investigação encontre sentido posteriormente, na sala de montagem. A decisão de não recorrer a uma narração constante – procedimento frequentemente utilizado por Petra Costa – desloca para o público a tarefa de estabelecer conexões entre arquivos, depoimentos e acontecimentos.

Mas é quando abandona momentaneamente o ambiente institucional que o documentário alcança seu momento mais forte. A CPI deixa de ser apenas um palco de embates políticos para recuperar aquilo que justificava sua existência: pessoas.

Kátia Shirlene Castilho dos Santos revive a morte da mãe após o uso do chamado “kit Covid” promovido pela Prevent Senior. Giovanna da Silva relata a perda dos pais durante a pandemia, restando apenas ela e a irmã mais nova. Já Márcio Antônio Silva compartilha uma dor que ultrapassa a perda do filho. Seu luto também foi violentado quando um apoiador do então presidente Jair Bolsonaro retirava cruzes de um cemitério improvisado enquanto gritava palavras de ordem políticas. O vídeo, levado posteriormente à CPI, transforma uma tragédia íntima em documento de uma investigação nacional.

É justamente nesses relatos que Anatomia do Caos encontra seu centro emocional. Embora inicialmente identificados apenas como “familiares de vítimas da Covid”, esses personagens jamais permanecem reduzidos a essa condição. A diretora devolve individualidade àquilo que a burocracia e as estatísticas frequentemente transformam em categoria. Cada depoimento lembra que nenhuma investigação existe sem aqueles que carregam suas consequências muito depois do encerramento de uma comissão parlamentar.

Também chama atenção a serenidade com que Dandara observa os trabalhos da CPI. Em vez de construir suspense a partir dos bastidores ou enfatizar confrontos entre parlamentares, a diretora prefere registrar o processo quase em estado de espera, permitindo que a montagem reorganize aqueles acontecimentos sem recorrer ao excesso de explicações. É um gesto de confiança não apenas na linguagem cinematográfica, mas na capacidade das imagens de sustentarem seu próprio peso.

Ao mesmo tempo, esse recorte também produz ausências. Ao concentrar sua narrativa nas responsabilidades discutidas em âmbito federal, o documentário deixa pouco espaço para refletir sobre agentes políticos locais que também tiveram papel decisivo na crise sanitária do Amazonas. Para quem viveu aquele período em Manaus, essa escolha inevitavelmente provoca uma sensação de incompletude. Não porque o filme devesse abarcar todos os responsáveis por uma tragédia dessa dimensão, mas porque toda construção de memória também é resultado das histórias que decide deixar fora do quadro.

Anatomia do Caos compreende que nenhum documentário é capaz de registrar uma tragédia em sua totalidade. Toda imagem é também uma escolha. Ao organizar arquivos, depoimentos e lembranças, Dandara Ferreira não oferece uma versão definitiva daqueles acontecimentos, mas uma leitura possível de um trauma que ainda permanece aberto.

Para quem vive em Manaus, rever essas imagens significa reencontrar uma memória que nunca deixou completamente a cidade. Durante a pandemia, foi impossível não perceber como disputas de narrativa muitas vezes ocuparam o espaço da própria humanidade. Entre discursos, investigações e arquivos, Anatomia do Caos insiste em lembrar aquilo que o tempo e a política frequentemente tentam reduzir a números: toda crise institucional começa pela ausência de alguém.