Mais de cinco anos após o início da pandemia de Covid-19, o Brasil ainda convive com feridas abertas. Em Anatomia do Caos, a diretora Dandara Ferreira retorna aos bastidores da CPI da Covid para investigar como a desinformação, o negacionismo e a ausência de responsabilização ajudaram a transformar uma crise sanitária em uma tragédia nacional.

Depois de estrear na ficção com Meu Nome É Gal, a cineasta baiana lança agora um documentário político que reúne imagens inéditas registradas dentro do Senado e acompanha o trabalho dos parlamentares responsáveis pelas investigações. Para ela, a CPI é apenas o ponto de partida de uma reflexão muito maior sobre memória, democracia e justiça.

Em entrevista ao Cine Set, Dandara Ferreira relembra o medo de filmar durante a pandemia, fala sobre o acesso aos bastidores da comissão, comenta a importância de personagens como Omar Aziz para a narrativa e defende que Anatomia do Caos não é apenas um filme sobre a Covid-19, mas um retrato de como o Brasil reagiu a um dos períodos mais dramáticos de sua história recente.

Cine Set – Dandara, como você sente que estamos lidando com o fantasma da pandemia e tudo o que aconteceu? 

Dandara Ferreira – É difícil falar sobre isso, especialmente porque você é de Manaus. Imagino que, para vocês, tudo tenha sido muito mais intenso. Nem consigo dimensionar o que foi viver aquela realidade.

A pandemia terminou simbolicamente no nosso país. Saímos da emergência sanitária, mas nunca elaboramos, de forma coletiva, o trauma daquele período. Foram centenas de milhares de mortes, famílias destruídas e muitas pessoas que ainda convivem com as sequelas físicas e emocionais deixadas pela doença. Além disso, ninguém foi punido e nunca houve um pedido de desculpas. Por isso, o filme também nasce da necessidade de preservar a memória do que aconteceu. Um país só consegue avançar quando enfrenta o próprio passado. Não podemos simplesmente esquecer uma tragédia dessa dimensão.

O filme também dialoga diretamente com o presente. Ele aborda a responsabilidade pública, a desinformação, os ataques à ciência e a fragilidade democrática que marcaram aquele período. São questões que permanecem atuais e ajudam a compreender não apenas a pandemia, mas também os desafios que o Brasil continua enfrentando.

Mais do que explicar a pandemia, o filme procura entender como um país chegou ao ponto de naturalizar uma tragédia. Vivemos um dos momentos mais terríveis da nossa história recente, marcado pela banalização da morte. A CPI é apenas a porta de entrada dessa narrativa. No fundo, o filme é sobre o Brasil.

Cine Set – Você acompanhou os depoimentos de muitos bolsonaristas ao longo da CPI entre políticos, empresários, médicos. Diante de tudo o que o filme apresenta e você registrou, você consegue compreender o que levaram aquelas pessoas a embarcarem naquela loucura?

Dandara Ferreira – É difícil compreender o que aconteceu. O que mais me impressionou, mais me revoltou e, principalmente, o que despertou em mim o desejo de fazer esse filme foi a insensibilidade, o deboche e a falta de empatia com quem estava morrendo. Não considero admissível a postura adotada por quem era responsável naquele momento, como se nada estivesse acontecendo, fazendo piadas e rindo diante da morte. Naturalizar o que aconteceu é rebaixar a um nível insuportável o valor da vida.

Quase metade das 700 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Isso, inclusive, é dito no filme pelo Pedro Hallal. Essas pessoas morreram porque os dirigentes — e não falo apenas do presidente, mas também de ministros e de todo o entorno do governo — não tinham compromisso com a ciência nem com a vida. Até hoje me pergunto como tudo pôde acontecer de uma forma tão cruel e tão brutal. Ainda não consigo entender como foi possível agir contra as vacinas, defender medicamentos ineficazes e apresentar a imunidade de rebanho como alternativa, especialmente em um lugar como Manaus, cuja realidade vocês conhecem tão bem.

A ciência existe justamente para desenvolver imunizantes e evitar que centenas de milhares de pessoas morram. O que aconteceu foi uma barbárie. Também tenho dificuldade de compreender como ainda há pessoas que acreditam nesse projeto. Se alguém disser que, em 2018, foi enganado por um discurso que se apresentava como apartidário ou como algo diferente da política tradicional, é uma discussão possível. Mas, depois de tudo o que aconteceu, principalmente durante a pandemia, ainda vemos um país profundamente dividido. A última eleição mostrou isso: o resultado foi decidido por uma margem muito pequena. É isso que mais me choca. Ainda convivemos com o risco de voltar ao passado.

Cine Set – Fazer um filme na pandemia em uma época ainda com vacinação nos primeiros passos. Como lidar com essa dualidade entre a necessidade de registrar e o risco da doença?

Dandara Ferreira – Eu tinha muito medo. Moro em São Paulo e fui para Brasília para acompanhar e filmar a CPI. Até aquele momento, praticamente não saía de casa. Não encontrava amigos nem familiares. Tinha a sensação de que bastava abrir a porta para o vírus entrar. Era um medo constante.

Tomava todos os cuidados possíveis. Usava álcool em gel o tempo inteiro, higienizava tudo o que vinha do supermercado e era extremamente rigorosa com as medidas de proteção. Na verdade, a primeira vez que realmente saí de casa foi justamente para filmar a CPI. Ainda não havia vacina naquele momento. Inclusive, acredito que a própria CPI contribuiu para acelerar o processo de vacinação no país.

Mesmo assim, fui. Usava duas máscaras e procurava me proteger o tempo todo. Quando tive a ideia de fazer esse filme, conversei com uma amiga produtora sobre irmos a Brasília para gravar. Ela não quis levar uma equipe nem assumir essa responsabilidade diante do risco. Decidi ir, sabendo do perigo que corria. Passei todo o período com muito medo de me contaminar. Ainda assim, procurava fazer tudo da maneira mais responsável possível, tomando todos os cuidados que estavam ao meu alcance para reduzir os riscos.

Cine Set – Inicialmente, o documentário traz como personagens centrais Renan Calheiros, Omar Aziz, Humberto Costa e Randolfe Rodrigues. Como foi acessar estes espaços em um momento tão crucial? Teve alguém que mais te surpreendeu?

Dandara Ferreira – No começo, eu tinha um acesso muito limitado. Minha credencial era de imprensa, então eu circulava no Senado nessa condição. Mas, como permaneci ali durante toda a CPI, fui construindo uma relação de confiança com as pessoas. O G7 (grupo de senadores contra Bolsonaro na CPI) sabia da minha presença, mas o restante não. E eu fazia questão de permanecer o mais invisível possível. A câmera que eu levava era uma câmera de bastidor. Se eu me tornasse uma presença muito evidente, sabia que as pessoas mudariam o comportamento diante dela. Meu objetivo era justamente o contrário: registrar o máximo possível de forma espontânea, deixando todos à vontade.

Com o tempo, essa relação de confiança foi me permitindo ter cada vez mais acesso. Eu, por exemplo, não conhecia o Omar Aziz antes da CPI. Foi ali que o conheci e acabei me interessando muito por ele como personagem. Havia algo muito interessante na maneira como ele conduzia os trabalhos. Ao mesmo tempo em que exercia uma autoridade muito forte, também tinha um senso de humor que quebrava a tensão. Eu até brincava que ele era como um professor em sala de aula, porque aquele ambiente era bastante caótico.

Cada senador tinha uma personalidade muito marcada, e havia parlamentares que tentavam transformar a CPI em um espetáculo para desviar o foco das discussões. O Omar exercia esse papel de colocar ordem, de impor respeito, mas sem perder esse lado bem-humorado. Não estou falando apenas da figura política, mas do personagem cinematográfico. Para o filme, ele era um personagem muito rico.

Também me interessava mostrar como aquele grupo se formou. Naquele momento, pessoas muito diferentes decidiram trabalhar juntas em torno de um objetivo comum: buscar responsabilização e defender a vacinação. Eram políticos que, em muitos casos, tinham históricos de rivalidade. O próprio Randolfe diz que o Renan era um adversário histórico e também comenta que tinha desconfiança em relação ao Omar.

Era bonito acompanhar isso de perto porque, normalmente, falamos muito mal do Parlamento e dos políticos. Mas eu estava ali, nos bastidores, como alguém da sociedade civil, acompanhando diariamente aquele trabalho. E o que vi foi um grupo que compreendeu que, diante de uma tragédia como a pandemia, as divergências políticas precisavam ficar em segundo plano para que fosse possível enfrentar um desafio muito maior.

Cine Set – Anatomia do Caos reforça que, até o momento, ninguém foi condenado, muito menos um pedido de desculpas foi feito às vítimas e aos brasileiros de modo geral. Qual sua expectativa para isso? Acredita que veremos justiça um dia?

Dandara Ferreira – Desejo muito que este filme provoque um debate público sobre o que aconteceu e sobre a responsabilização de quem conduziu aquele período. Como você mencionou, ninguém foi punido. Bolsonaro foi preso recentemente, mas não pelo que fez durante a pandemia. Na minha avaliação, o que aconteceu naquele período foi ainda mais grave do que a tentativa de golpe.

A CPI produziu um relatório extenso e indiciou dezenas de pessoas. Há uma cena marcante no filme em que o Pazuello pergunta, no caso de Manaus, o que o Ministério da Saúde teria a ver com a falta de oxigênio. Tudo o que aconteceu ali foi de uma gravidade enorme, e aquelas autoridades tinham responsabilidade direta sobre a situação, porque esse era justamente o papel delas.

A CPI cumpriu sua função. A responsabilização jurídica, porém, depende de outras instituições, como o Ministério Público e o Judiciário. Espero que o filme ajude a recolocar esse tema em discussão e fortaleça a busca por justiça. No ano passado, vimos o ministro Flávio Dino retomar esse assunto ao defender a reabertura das discussões sobre os trabalhos da CPI.

Também considero este um filme sobre memória. Um país só consegue avançar quando enfrenta o próprio passado. A memória da CPI ainda não foi plenamente elaborada. Na verdade, ela continua muito presente e atual. Por isso, espero que o filme faça esse debate voltar à pauta.

Este também é um ano eleitoral, o que torna essa reflexão ainda mais importante. As decisões e escolhas feitas agora terão impacto direto no futuro do país e na vida de todos nós.

Ao mesmo tempo, o filme não se limita a discutir responsabilidades. Ele também convida o público a pensar no futuro, a compreender melhor o que aconteceu no Brasil, a refletir sobre como foi viver sob um governo negacionista, sobre o funcionamento das nossas instituições e sobre a própria pandemia. Nesse sentido, é um filme que dialoga com o presente, mas que também permanece relevante para o futuro.