Existem histórias que deveriam ser séries. Existem roteiros que, mesmo após anos maturando, ainda não estão prontos. E existem filmes que tentam abraçar o mundo, mas não chegam a lugar algum. Antártida cabe em todas essas caixinhas.

Dirigido por Bruno Sáfadi, o filme de abertura do 54º Festival de Cinema de Gramado traz cientistas e militares que convivem em uma estação brasileira na Antártida, quando a recém-chegada Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de violência sexual. O isolamento imposto pelo ambiente transforma todos os homens da base em suspeitos. A investigação fica sob responsabilidade da subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão), enquanto as mulheres do local lidam não apenas com traumas do passado, mas também com uma estrutura masculina marcada por abuso de poder, violência e silenciamento.

É totalmente justificável ser Antártida ser o filme de abertura: traz um elenco de estrelas nacionalmente conhecidas, alto orçamento e feito com o que há de mais tecnológico. A produção simboliza uma tentativa ambiciosa de mostrar que o cinema nacional pode também ser um pouco Hollywood e transformar um estúdio em qualquer outro lugar do mundo, além de se aventurar por territórios e temáticas pouco exploradas em nossas produções. 

Gravado inteiramente nos Estúdios Globo, Antártida reconstitui uma estação completa de pesquisa no continente gelado, utilizando-se da tecnologia de produção virtual, com 300 metros quadrados de painéis de LED, além de imagens captadas na Patagônia. O resultado visual é bastante convincente. Se existe um elemento em que o filme sai vitorioso é na sua composição visual. A produção foi realizada em um estúdio no Rio de Janeiro, utilizando-se de tecnologia virtual para recriar um ambiente congelante que poderia facilmente resultar em algo artificial e tropeçar pro caricato. Felizmente não aconteceu. 

Essa tecnologia, no entanto, não acompanha a narrativa. Tirando o véu do grande maquinário erguido para dar vida à trama, está uma história que não consegue sustentar a própria ambição. O roteiro não apenas trata da violência sofrida por Inês, mas logo nos primeiros minutos, somos introduzidos ao relacionamento extremamente abusivo de Marina (Leandra Leal) e Vicente (Lázaro Ramos) em que a vítima sofre com agressões físicas. É uma tentativa da roteirista Cláudia Jouvin em mostrar como cultura de violência está perpetuada diariamente naquela estação. Neste universo de boas intenções, Antártida se mostra incapaz de criar um foco, abandonando uma situação pra abordar outra e, no final, sai sem falar nada.

Não há desenvolvimento sobre violência doméstica, perseguição, silenciamento e alienação parental. O casal Marina e Vicente, por exemplo, aparece durante os primeiros minutos, tem uma ou outra ênfase durante o filme e tudo termina com uma frase. Pior ainda é a personagem da atriz Mariana Sena: sem maior destaque durante toda a ação, ela só aparece para dar apoio a Inês, contando que para sobreviver dentro de um ambiente masculino, teve que se assemelhar a eles, seja na aparência, seja no comportamento. É problemático relegar justo o papel de “apagada” e “não desejada” à única atriz negra do elenco. No fim, acaba sendo só mais uma ideia jogada.

Antártida também peca por ser excessivamente didático: os personagens masculinos são construídos a partir de comportamentos que, sim, são comuns de se encontrar no dia a dia, mas ainda deixam pouco espaço para ambiguidade. Com isso, o suspense que era pra ser o principal chamariz do filme perde uma das ferramentas mais importantes: a dúvida. Vendido como um thriller, o longa se perde nas próprias abordagens e acaba deixando de lado o fio condutor da história: quem violentou Inês. A investigação é guiada por Elisabeth, papel de Beltrão, que flui melhor quando o filme traz uma sequência de depoimentos e as contradições começam a aparecer, dando continuidade àquele que deveria ser o motor principal do filme. 

Aqui, vale destacar a grande performance de Andrea Beltrão: a atriz entrega uma Elisabeth complexa, com feridas ainda abertas e que se sobressai a um roteiro mal finalizado. A personagem carrega suas próprias dores, e mediante a tudo, ainda precisa administrar o conflito na base e os próprios problemas que o local enfrenta para manter a equipe viva em temperaturas negativas. Beltrão consegue transmitir muito com pouco, diferente de sua colega de cena, Marina Ruy Barbosa, que fraqueja nas cenas de maior carga dramática. É engraçado que a atriz parecia vindo evoluir em seus trabalhos, mas em Antártida ela está tão artificial, robótica, lembrando os tempos de quando viveu a noiva-fantasma da novela “Amor à Vida” (2013). Leandra Leal, por sua vez, está muito bem, embora o roteiro não permita que sua personagem tenha o desenvolvimento que poderia.

Em coletiva, foi pautado diversas vezes que o roteiro nasceu em 2012 – até por isso o filme se passa nessa época, mas pra tanto tempo, sente-se que não foi maturado o suficiente. Faltou tratamento e tempo de tela. Antártida ao menos demonstra que uma produção brasileira é capaz de criar uma experiência visual grandiosa de alto orçamento. O que ainda falta é alinhar uma história igualmente grandiosa para acompanhar esse avanço. Não é uma tragédia completa, mas não é a peça de denúncia que pensaram que seria. Se serve de consolo, pelo menos tentaram.