A atriz Mia Goth e o diretor Ti West estabeleceram uma daquelas parcerias especiais e incríveis do cinema quando fizeram X: A Marca da Morte (2021): o que era para ser um terror despretensioso que homenagearia o cinema slasher e também o seu primo mal visto, o pornô, acabou virando um projeto mais ambicioso, uma trilogia, quando West e seus atores e equipe se viram confinados na fazenda onde ocorriam as filmagens, por causa da pandemia de Covid-19. Depois de X, fizeram Pearl (2022), prequel que mostrava a origem da assassina do longa anterior – e em um lance inspirado, Goth interpretou a heroína e a vilã, em filmes que mostravam essas personagens como duas faces da mesma moeda. Isso permitia diferentes interpretações sobre a relação entre mulheres e o cinema de horror.
Em um era de universos compartilhados e na qual qualquer filme que arrecade um pouquinho a mais do que seu orçamento de produção ganha uma sequência, X e Pearl foram abraçados pelo público de cinema mais cult – ambos vieram da produtora A24, afinal. E o fato de uma história se desdobrar da outra pareceu orgânico e natural, ao invés de apenas continuar a narrativa para ganhar mais dinheiro. E acima de tudo, ambos os filmes tornaram Mia Goth a atriz cult do momento, uma Barbara Steele ou uma Sissy Spacek do século XXI. O fato dela não ter sido indicada ao Oscar por Pearl até hoje gera choradeira em parte do público cinéfilo.
Agora eles se reúnem para a terceira parte, Maxxxine, que pega a sobrevivente de X e a coloca como aspirante a estrela de cinema – e disposta a tudo para tal – na Hollywood dos anos 1980. Porém, aqui, a receita desandou um pouco: como vários terceiros capítulos de trilogias, Maxxxine não chega a ser ruim, mas não está à altura dos anteriores e se revela uma pequena decepção.
AMBIENTAÇÃO PERFEITA
O longa se passa em 1985: a ainda traumatizada Maxine Minx (Goth) quer fazer a transição do cinema pornô para o mainstream e o jeito mais rápido e provável disso acontecer era estrelar um terror, notadamente um slasher. Justo quando é escalada como a protagonista do projeto “A Puritana II”, pessoas próximas a ela começam a morrer. Pode ser obra do Night Stalker, o assassino em série da vida real Richard Ramirez, que agiu nesta época? Ou os assassinatos poderão ter alguma coisa a ver com o passado da moça? Cabe à heroína descobrir.
A melhor coisa de Maxxxine, à parte o desempenho de Goth, é a ambientação: West e o diretor de fotografia Eliot Rockett adotam o estilo de iluminação banhada a neon, comum em obras de Michael Mann do período, e usam o Split-Screen para dividir a tela como Brian De Palma costumava fazer com maestria. Uma imagem de sangue caindo sobre fitas de vídeo fica na mente do espectador. O assassino usa luvas pretas, como em vários giallos italianos clássicos que serviram de inspiração para o slasher, e a trilha de Tyler Bates usa e abusa dos sintetizadores eletrônicos, com algumas canções do período sendo bem utilizadas.
A reconstituição de época inclui os figurinos – alguns, criativos – e o pânico moral do período, quando os Estados Unidos e outros países, viam seus “cidadãos de bem” protestando contra filmes de terror baratos e sangrentos passando nos cinemas e invadindo as videolocadoras, onde podiam corromper as criancinhas e os jovens. Assim, “Maxxxine” ressalta como o horror era uma reação ao conservadorismo político dominante naquela época. A diretora de “A Puritana II”, interpretada por uma glacial Elizabeth Debicki que rouba várias cenas, quer usar o seu filme de matança justamente para comentar sobre isso. “Um filme B com mensagem”, ela diz a Maxine. Já o amigo da heroína (Moses Ingram), que trabalha em uma locadora, prevê que, 30 anos depois, alguns desses filmes seriam mais lembrados que o vencedor do Oscar Laços de Ternura (1983), num diálogo divertido.
ROTEIRO MENOS INSPIRADO
Bem, talvez West tenha se deixado levar demais pelas ideias da sua diretora ficcional porque em Maxxxine, o diretor está em boa forma, mas sua faceta de roteirista toma algumas decisões criativas que enfraquecem o filme. Apesar dos assassinatos e da sanguinolência, o filme tem pouca tensão. A subtrama envolvendo o personagem do detetive vivido por Kevin Bacon – uma figura marcante dos anos 1980 – termina de forma decepcionante e a relação da protagonista com o advogado interpretado por Giancarlo Esposito não é explicada direito, parecendo subdesenvolvida.
E o final, quando a história deveria crescer e deixar o espectador tenso, é o aspecto mais decepcionante do longa: todo o terceiro ato de Maxxxine é meio mal conduzido, com a revelação do mistério sendo previsível e anticlimática. Apesar disso, a imagem final do filme, cínica e sangrenta, tenta redimir as coisas e, pelo menos, traz um sorriso ao espectador.
O roteiro também torna a Maxine uma personagem passiva ao invés de ativa por boa parte da história, o que é decepcionante tendo em vista a força que Mia Goth exibiu nos longas anteriores. Ainda assim, a atriz está totalmente no comando das suas cenas e da sua performance, mesmo quando o roteiro não lhe presta favores. Se X e Pearl representaram o “Nasce Uma Estrela” de Mia Goth, aqui ela comprova ter o necessário para se manter como uma presença interessante e cativante na tela. “Sou uma estrela”, Maxine proclama no filme e sua intérprete pode dizer o mesmo sem nenhum questionamento.
Ti West comenta sobre gênero e nos faz visitar o cenário de Psicose (1960), mas seu filme é mais estilo que substância desta vez. A outra metade da dupla, porém, continua afiada e derramando sangue na tela.













