“Antes de você chegar, eu fiz um desejo… Acredito que, de certa forma, ele já se realizou. Ambos somos responsáveis.” […] “E o que você desejou?”.
Acredito que poucos diálogos de filmes me emocionaram de forma tão genuína quanto esse trecho sensível de uma conversa entre dois personagens na nova animação francesa dirigida por Ugo Bienvenu. Coprodução entre França e Estados Unidos, o longa-metragem Arco estreou recentemente nos cinemas brasileiros e está indicado na categoria de Melhor Animação no Oscar 2026.
Com um frescor artesanal que pouco se encontra em animações atuais e uma trilha sonora deslumbrante, composta por Arnaud Toulon, Arco se destaca para além de suas qualidades técnicas. O filme possui um ritmo calmo e singelo, assim como apresenta personagens honestos e carismáticos que encantam em poucos minutos de tela. Na trama, acompanhamos a vida de Arco, um garoto que mora com seus pais e sua irmã em um ano futurístico. Por não ter idade suficiente para fazer viagens no tempo, como sua família realiza, o menino decide roubar o traje colorido de viagem da irmã durante uma noite na tentativa de se transportar para a época dos dinossauros, onde seus familiares já estiveram e ele sempre sonhou em visitar.
Entretanto, algo dá errado durante sua fuga e ele acaba indo parar no ano de 2075, onde encontra uma garota chamada Iris. Ela o resgata após o menino aterrissar inconsciente em uma floresta e o acolhe em sua casa. Logo, os dois criam uma amizade e partem em busca de respostas para ajudar Arco a voltar para casa (e seu futuro). Contudo, Iris não é a única interessada em saber a origem do menino caído do céu, e ela precisará proteger o novo amigo de autoridades e de três irmãos impostores que pretendem sequestrá-lo.
É inevitável notar o quanto a animação possui aspectos característicos dos filmes do Studio Ghibli. Desde o primeiro ato, é possível sentir o calor de algumas cenas e distinguir os microsons dos elementos que habitam cada ecossistema. As paisagens bucólicas, a sutileza na expressão dos personagens e a mixagem de sons em um verdadeiro espetáculo onomatopeico tornam-se estonteantes diante daquele universo cada vez mais envolvente, resultando em uma experiência sinestésica que muito remete a clássicos como Princesa Mononoke e A Viagem de Chihiro.
Assim como nos filmes da produtora japonesa, a animação também galga sobre problemáticas sociais que interseccionam a humanidade desde o início do século XXI: crises climáticas, desastres naturais, capitalismo exacerbado e a substituição da mão de obra humana (e afetiva) pela tecnologia. Embora esses temas não sejam dialogados de forma explícita no filme, eles são refletidos em segundo plano por meio do modo de vida dos personagens.
Mas mais do que uma história sobre viagens no tempo, Arco parece interessado em algo mais íntimo: a necessidade humana de validar os sonhos e as experiências que carregamos desde a infância, mesmo quando o mundo adulto insiste em tratá-los como impossíveis. Essa ideia se manifesta não apenas na jornada do protagonista, mas também nas trajetórias paralelas que atravessam a narrativa.
Um dos grandes trunfos da animação também está em mostrar como os personagens infantis possuem uma lealdade entre si e como, posteriormente, percebemos que até os adultos carregam motivações e honestidade em prol de sua criança interior. O filme utiliza essa metáfora para sugerir que, mesmo em uma idade jovem, devemos legitimar nossos sonhos e desejos. E que, ainda que vozes exteriores se mostrem contrárias ou digam ser impossível realizá-los, podemos, de certa forma, alcançar esses sonhos.
Se Arco não conseguiu viajar para a Era Mesozoica e encontrar os dinossauros como pretendia, em determinado momento do filme ele acaba realizando esse desejo de outra forma. Se os três irmãos não obtiveram sucesso em provar o que viram naquele momento da infância, em outro trecho do filme eles se mostram capazes e encontram validação. E se Iris tinha um desejo silencioso que fosse realizado… bom, acredito que ela responda a Arco quando ele a questiona.
Há ainda um pequeno gesto que parece atravessar silenciosamente a história: Arco e Iris. Quando seus nomes se encontram, formam arco-íris, como se o próprio filme insinuasse, com delicadeza, essa ponte entre dois mundos que por um instante se tocam.
E se, dentro da narrativa, o diamante presente no traje colorido de Arco é o elemento essencial para que o protagonista possa realizar suas viagens no tempo, talvez o verdadeiro tesouro que a animação nos ofereça seja outro: a valorização da esperança. Em um mundo cada vez mais atravessado por conflitos sociais, morais e econômicos, histórias como a de Arco tornam-se não apenas relevantes, mas necessárias. Afinal, é justamente por meio dela que seguimos acreditando na possibilidade de dias melhores e lembramos que, mesmo diante das incertezas do presente, ainda existe espaço para imaginar futuros menos sombrios.













