Ganhadora do Oscar por Cisne Negro e dona de uma das carreiras mais celebradas do cinema mundial, Natalie Portman investiu na animação em 2025. A estrela esteve no elenco de dubladores de Os Pestes, disponível na Netflix, e narrou e produziu o excelente Arco, produção lançada no último Festival de Cannes e indicado ao Globo de Ouro.

A obra comandada pela dupla francesa Ugo Bienvenu e Gilles Cazaux se passa em um universo futurista e mostra a amizade de uma garota com um rapaz de capa colorida vindo do futuro. Arco aborda o perigo climático e um mundo onde os pais deixam robôs cuidando dos filhos enquanto vão trabalhar, dois temas em voga no mundo atual.

Caio Pimenta entrevistou Portman e Bienvenu durante a temporada de premiações e traz detalhes dos bastidores da animação. Confira abaixo:

Cine Set – Embora Arco se passe no futuro, você optou por uma animação 2D belíssima e colorida. Por que o 2D foi a escolha certa para esta história?

Ugo Bienvenu – Antes de tudo, eu sou ilustrador e autor de quadrinhos, além de diretor. O meu estilo é totalmente em 2D, e eu queria que o filme tivesse a mesma aparência dos meus desenhos. Então esse já era um motivo muito forte. Mas, além disso, foram os filmes em 2D que me fizeram sonhar quando eu era criança — e que ainda me fazem sonhar hoje. Eu gosto do aspecto artesanal, de sentir que aquilo foi feito por pessoas, à mão.

Por exemplo, o 3D não me provoca a mesma coisa. Não fico tão empolgado quanto quando vejo um filme em 2D. Falta algo ali, sabe? Esse encantamento. Eu preciso dessa dimensão mágica. E, para mim, “Arco” tinha exatamente essa magia — e por isso ele precisava ser em 2D.

Cine Set – Natalie, o que você acha que torna a abordagem da Arco em relação às mudanças climáticas esperançosa em vez de assustadora?

Natalie Portman – O filme é muito honesto ao encarar os desafios. Ele não tenta dizer que vai ficar tudo bem, sabe? Ele nos oferece uma visão realista do que estamos enfrentando, mas, ao mesmo tempo, aposta na imaginação e na criatividade humanas como caminhos possíveis para encontrar soluções.

E eu acho isso realmente inspirador, mas de uma forma séria — não de um jeito leviano, como se a situação não fosse grave. Pelo contrário. O filme coloca a responsabilidade nas nossas mãos, deixa claro que o futuro não está determinado. A gente não sabe se vai dar tudo errado ou se vai dar tudo certo. Ele pode seguir por muitos caminhos diferentes, dependendo do que a gente fizer agora. E é justamente por isso que precisamos ser criativos.

Cine Set – Natalie, o que mais te motivou a abraçar a ideia de produzir Arco quando Ugo te apresentou o projeto pela primeira vez?

Natalie Portman – Ugo mostrou para Sophie, que é minha parceira de produção, e a mim — um animatic de cerca de 40 minutos. Pudemos ver toda a beleza dessa animação 2D feita à mão, com um nível de arte realmente impressionante. Mas não era só isso: ele também contava uma história poderosa, muito urgente, daquelas que parecem precisar existir no mundo agora, e com muita poesia.

Em determinado momento, o Ugo nos disse algo que ficou muito marcado para gente: Arco, na verdade, era uma memória do futuro. Achei essa uma forma tão bonita de falar sobre imaginação que isso ficou ecoando em nós. E aí foi imediato — pensamos: “ok, o que quer que a gente possa fazer para ajudar a colocar isso no mundo, a gente vai fazer”.

Cine Set – Ugo, adoraria que você falasse sobre as cores do arco-íris, que são alguns dos elementos mais belos do filme — é impossível não se emocionar quando elas aparecem. Quando surgiu essa ideia?

Ugo Bienvenu – Eu desenho arco-íris desde os 18 anos. Coloco arco-íris em tudo o que faço — virou quase uma assinatura do meu trabalho hoje. E, não sei… no começo era até uma provocação, porque as pessoas diziam que era cafona, de mau gosto. E eu queria mostrar que nada é de mau gosto se você souber usar da forma certa, sabe?

Em Arco, o arco-íris acabou vindo muito dessa ideia de magia. Eu gosto desse fenômeno que acontece quando está chovendo e fazendo sol ao mesmo tempo. E aí eu pensei: “ok, eu quero fazer um filme em que você possa rir e chorar ao mesmo tempo”. Foi mais ou menos isso que me guiou durante a criação de Arco.