Enquanto assistia “As Três Filhas”, filme de Azazel Jacobs, fiquei pensando em outra história de um pai no leito de morte e sua relação com suas três filhas: Rei Lear. Talvez as comparações com a tragédia shakesperiana fiquem apenas na discussão entre a partilha dos bens e o fato de se tratar de um drama familiar, mas me arrisco a dizer que o roteiro, também assinado por Jacobs, nos permite ver um outro lado da moeda, o das filhas desse senhor estimado com seus dramas, motivações e rancores de uma jornada condensada na perda. 

Jacobs nos leva para um apartamento em Nova York. Três irmãs distantes se encontram para cuidar do pai nos últimos dias de vida. Cada uma lida com esse momento de forma diferente e isso coloca suas emoções em rota de colisão. O resultado é um retrato desconfortável, íntimo e, ao mesmo tempo, comovente e tocante sobre luto, fraternidade e, de certa forma, paternidade. Carrien Coon, Elizabeth Olsen e Natasha Lyonne entregam atuações marcantes por meio de sutilezas e da transposição do peso emocional de não estar preparado para o mundo sem a pessoa a quem ama. 

Um dos grandes trunfos de “As Três Filhas” é o desenvolvimento cuidadoso de suas personagens principais. Cada uma ocupa o tempo de tela necessário para que conheçamos suas perspectivas e as coisas que as incomodam tanto em relação umas às outras quanto na relação com o pai. Dessa forma, o roteiro consegue explorar as nuances emocionais de cada uma das irmãs e dar-lhe características únicas e tridimensionais, algo favorecido também pelo figurino e maquiagem que as envolve tanto com estilos convenientes às suas personalidades quanto a maneira como enfrentam esse momento.

Katie (Coon), a irmã mais velha, busca assumir a liderança da situação. A primeira cena do filme, por exemplo, é um monólogo seu que entoa toda intensidade e controle que tenta impor a partida do pai. Em dado momento, ela passa a sensação de que as coisas só darão certo se forem da forma como ela quer, se assim não for é melhor até mesmo que o pai adie sua morte. Para contrabalancear sua rigidez, Christina (Olsen) tenta mediar a figura impositiva da irmã, especialmente em relação a Rachel (Lyonne). Nesse processo, ela expõe suas próprias vulnerabilidades e as angústias que ainda guarda. Ambas alternam entre tons bordos e creme, como se fossem complementares uma à outra. 

Em contrapartida, Rachel se traja diferente de ambas. Com vestimentas mais street e cores escuras, a irmã do meio é vista como problemática, por não corresponder aos padrões das outras irmãs. Conforme a projeção se desenrola, no entanto, a dor latente que acompanha a personagem vai se revelando em detalhes sutis. O que nos lembra como as palavras e os gestos são importantes dentro de “As Três Filhas”.

A ambientação escolhida é o que nos dá o tom dessa importância. Com exceção de algumas cenas externas de Rachel, a narrativa fica confinada ao apartamento do pai, ofertando um grau claustrofóbico e deixando as emoções e sentimentos em ponto de ebulição, algo notável nos diálogos preenchidos por mágoa e afeto, responsáveis por revelar os incômodos que acompanham essa jornada familiar. 

Jacobs, no entanto, faz uma jogada no último bloco que me chamou muito atenção, acredito que pelo tom surrealista e, ao mesmo tempo, emocionalmente honesto com o qual o pai se porta e mostra a cada filha tanto sua importância dentro daquele núcleo familiar quanto o quão bem as conhece e respeita dentro de suas particularidades e excentricidade. Isso só mostra o quão humano e complexo são as personagens que temos em tela e a beleza desse filme sobre partidas, mas também reencontrar a si e as outros em meio a dor.

Todas essas nuances evidenciam como “As Três Filhas” traz um relato sensível e intimista sobre os relacionamentos familiares e a maneira como lidamos com o luto. O trio Coon, Olsen e Lyonne sustentam a narrativa, com performances impecáveis e que em nada lembram personagens que já tenham feito, mas em muito a realidade de tantos lares de quem se ama, mas ainda precisa lidar com as dores do passado. Pode não ser um novo rei Lear, mas sem dúvida “As Três Filhas” é uma tragédia para se sentir tocado e compreender o peso de ser um ente familiar.