É curioso como em 2025 Richard Linklater lançou dois filmes que acabam travando um diálogo interessante um com o outro. Em Nouvelle Vague, ele dramatizou a história de um jovem artista gênio, o cineasta Jean-Luc Godard, durante o processo de filmagem do clássico Acossado (1959), o filme que daria origem ao movimento do cinema francês que mudaria a história do cinema mundial.

Já neste Blue Moon, ele de novo enfoca a história de um artista genial e altamente iconoclasta, o músico e compositor Lionel Hart. Na época em que é retratado no filme, Hart não é mais tão jovem, mas é tão apaixonado por sua arte, e irascível e romântico, quanto Godard no outro filme. Um é a história do começo de um artista, o outro é sobre o fim. Afinal, logo cedo, Linklater nos mostra que Hart morreria poucos meses depois dos eventos retratados em Blue Moon.

O nome de Lionel Hart pode não soar muito familiar, mas caso você escute as músicas compostas por ele, sozinho ou em parceria com o não menos icônico Richard Rodgers, imediatamente as reconhece e é levado a um ponto romântico do século XX que marcou a música americana. Várias dessas músicas tocam no filme, inclusive, cortesia de um pianista de um bar que dedilha no instrumento por quase toda a história. É 1943 e acompanhamos, ao longo de uma noite no bar, a figuraça que era Hart. Pequeno em estatura, mas sempre bebendo e conversando apaixonadamente, ele é o retrato do artista romântico. O filme começa após a parceria dele com Rodgers ter ficado seriamente abalada após este compor, com o novo parceiro Oscar Hammerstein II, o musical Oklahoma! Hart passa a noite chorando as pitangas para um garçom, discutindo com Rodgers e tentando se aproximar da jovem Elizabeth, sua nova paixão.

E é isso. Mas é o toque Linklater que faz de Blue Moon algo especial. É um filme tagarela como os da trilogia Antes do Amanhecer e outros do diretor, mas a paixão pelo diálogo e pelo personagem acaba conquistando o espectador. E embora a ação se passe inteira dentro do bar e seus cômodos, a encenação do diretor e a montagem da eterna colaboradora Sandra Adair injetam um certo dinamismo na história: há uma agilidade nos cortes e uma inteligência na escolha dos ângulos e na movimentação da câmera de Linklater. Quando Hart se empolga e fala apaixonado sobre a jovem que conheceu, a câmera anda junto com ele ressaltando o momento; quando há uma conversa tensa numa escada entre Hart e Rodgers, o ângulo próximo gera o incômodo necessário.

Acima de tudo, há um grande trunfo no filme: a atuação de Ethan Hawke, velho parceiro de Linklater, tendo atuado na já mencionada trilogia e em Boyhood (2014), como Hart. Ator sempre inteligente, ele consegue transmitir a erudição e paixão do seu personagem – seus diálogos iniciais sobre Casablanca (1942) com o garçom vivido por Bobby Cannavale conquistam de imediato, e, de certa forma, a frase “Ninguém nunca me amou tanto assim” já resume o protagonista. Na visão de Linklater, Hawke e do roteirista Robert Kaplow, Hart tem um talento gigantesco, mas é também seu pior inimigo, e o espectador realmente sente o grande drama interior daquela figura pequenina.

Quanto ao tamanho, observa-se que Linklater em alguns momentos filma Hart com uma perspectiva forçada, para fazê-lo parecer menor que outros personagens e o cenário. É fiel à realidade (na vida real ele tinha menos de 1 metro e meio), mas em um ou outro momento a técnica acaba chamando atenção para si mesma, deixando Hart semelhante a um hobbit. Mas isso, claro, não diminui a qualidade e a delicadeza da atuação de Hawke. Além dele, Andrew Scott como Rodgers (o ator parece mesmo uma figura dos anos 1940) e Margaret Qualley como Elizabeth também brilham e ajudam a compor o retrato do protagonista, brilhante e temperamental.

Graças a Lionel Hart, Blue Moon acaba também tocando em outros temas caros à filmografia de Richard Linklater, como a passagem do tempo e a perda da juventude. Hart, no retrato de Hawke, parece saber desde o início que a melhor fase da vida já passou e por isso se agarra à esperança de um jovem amor, na forma de uma moça, embora fosse homossexual. Esse sentimento torna muito tocante a cena entre ele e Elizabeth.

Os seres humanos sofrem e passam, mas a arte que criam – quando criam – às vezes fica. O trabalho de Hart foi escrever as letras, enquanto Rodgers criava as melodias, e juntos eles criaram peças eternas do cancioneiro americano, incluindo a canção que dá titulo ao filme. Talvez com Nouvelle Vague e Blue Moon, Richard Linklater proponha uma reflexão sobre a figura do artista e a própria autodestruição com a qual ele muitas vezes flerta. Num filme, o artista triunfa apesar das suas idiossincrasias; no outro ele falha. O que separou um do outro? Fica o questionamento para cada espectador responder, mas a beleza específica de Blue Moon deriva de um artista pequeno que sentia grandes sentimentos e soube transformá-los em belas músicas.