Não deixa de ser curioso que o cineasta norte-americano Richard Linklater tenha nascido no Texas, mas seus filmes geralmente tenham um sabor mais europeu que americano. Realizador da trilogia Antes do Amanhecer, do indicado ao Oscar Boyhood (2014) e de outros filmes que falam sobre a passagem do tempo, relacionamentos e que são mais focados em diálogo do que em ação, ele sempre pareceu um cineasta mais próximo de um Éric Rohmer ou de um François Truffaut do que de um típico americano de Hollywood.

Agora, o cineasta assume de vez sua conexão francesa com Nouvelle Vague, seu filme sobre o filme que mudou o cinema para sempre e foi um dos estopins da nova onda francesa a partir do final dos anos 1950. Nouvelle Vague é uma versão dramatizada dos bastidores de Acossado (1959), de Jean-Luc Godard, que foi filmado sem roteiro e quase sem orçamento, com técnicas revolucionárias de filmagem, e depois montado com os famosos jump cuts que fizeram com que cineastas e público pelo mundo inteiro repensassem suas noções de montagem e o que poderia ou não ser feito no cinema.

O filme traz Guillaume Marbeck como Godard. Preocupado com o fato de que seus colegas ex-críticos da revista Cahiers du Cinéma o estariam ultrapassando, o iconoclasta resolve fazer seu primeiro filme com um roteiro que já estava disponível, de autoria do seu então amigo Truffaut. Porém, ao conseguir o financiamento do produtor, Godard ignora o roteiro, chama dois atores promissores, o francês Jean-Paul Belmondo (Aubry Dullin) e a americana Jean Seberg (Zoey Deutch), que já era uma estrela em ascensão, e começa a fazer seu filme de forma totalmente livre, exasperando os demais profissionais.

É um barato, para cinéfilos, ver dramatizadas as inovações de Godard e toda a loucura que foi a produção do clássico. Linklater imprime ao filme um tom leve, quase de comédia, e dirige pela primeira vez em francês, chegando ao ponto de incluir ocasionalmente um chiado no som e aqueles círculos pretos no canto da tela, que filmes em película costumavam ter para servir de marcações para os projecionistas. Seu filme em preto e branco é uma ode a outra época do cinema e se torna uma delícia para quem curte filmes franceses ou estuda a história da arte.

E, claro, o elenco não desaponta, com Marbeck e Deutch como os grandes destaques. Ela consegue ser adorável como Seberg, e sua caracterização a deixou igualzinha à atriz. E ele é um achado: o ator consegue incorporar o espírito do que achamos que o Godard daquela época devia ser, uma criatura que parece ter nascido de óculos escuros e sempre com uma citação literária ou cinematográfica na ponta da língua. O desempenho de Marbeck é extraordinário e traz boa parte da diversão do filme.

Se há uma ressalva a ser feita a Nouvelle Vague, é que ele é reverente demais. Para um filme que reconta a história de uma obra tão disruptiva, o filme é divertido, mas até certo ponto meio careta. Não há jump cuts ou ousadias no filme de Linklater, apenas um desejo de homenagear e reverenciar. É uma decisão compreensível, mas, ao mesmo tempo, rouba dele a possibilidade de, a seu modo, ser uma homenagem ainda mais poderosa — uma que o notoriamente chato Godard (que faleceu em 2022) talvez pudesse curtir. Um desavisado pode até ficar sem compreender inteiramente a importância de Acossado por meio deste filme.

Mas, para quem conhece a história… em certos momentos, um sorrisão no rosto é inevitável.