Quase 50 anos depois da publicação do romance de Stephen King, Carrie, a Estranha ganha uma nova adaptação para as telas pelas mãos de Mike Flanagan. Conhecido por produções como A Maldição da Residência Hill, Missa da Meia-Noite e A Queda da Casa de Usher, o cineasta retorna ao universo do terror para revisitar a história de uma adolescente vítima de bullying que enfrenta o fanatismo religioso da mãe e a crueldade dos colegas.

A nova versão expande o universo do livro ao dedicar maior espaço aos pais, professores e demais personagens que cercam Carrie. A proposta também atualiza questões centrais da obra, como a violência entre jovens, a responsabilidade dos adultos e os efeitos da intolerância em uma sociedade atravessada pelas redes sociais e pela polarização. Ao longo da narrativa, a produção investiga como relações familiares, convicções extremistas e diferentes formas de crueldade contribuem para a trajetória da protagonista.

A série integra a filmografia de Mike Flanagan, que construiu uma carreira marcada por adaptações literárias e histórias de terror centradas em conflitos humanos. Além de Stephen King, o diretor já levou às telas obras de Shirley Jackson e Edgar Allan Poe, combinando elementos sobrenaturais com reflexões sobre luto, trauma, fé e relações familiares. No universo de King, seus trabalhos anteriores incluem Jogo Perigoso, Doutor Sono” e A Vida de Chuck.

Em entrevista ao Cine Set, Flanagan comenta os desafios de atualizar um clássico já adaptado para o cinema por Brian De Palma, em 1976, e explica como procurou construir uma identidade própria para a nova versão. O cineasta também aborda a representação do bullying na contemporaneidade, a influência da literatura na construção dos personagens, o fanatismo religioso e a importância da participação feminina na equipe criativa.

Cine Set (Caio Pimenta) – Esta nova versão de *Carrie* confere um papel de maior destaque aos pais e professores. Qual você considera ser o principal alerta que a série transmite a esses adultos no que diz respeito ao bullying?

Mike Flanagan – Um dos principais alertas é não presumir que entendemos o que os jovens estão passando. Muitos adultos cometem o erro de olhar para a própria experiência escolar e dizer: “Eu passei por isso, sei o que você está sentindo”. Mas não podemos partir do princípio de que nossas vivências são suficientes para compreender as deles. Precisamos ouvir de verdade o que os jovens têm a dizer.

Outro ponto fundamental é agir. Muitas vezes, por medo da reação dos pais ou por causa da burocracia que envolve administradores e educadores, as pessoas acabam não fazendo nada, acreditando que não há o que fazer. Mas sempre há alguma coisa a ser feita. É preciso agir imediatamente e defender a segurança dos estudantes. Espero que essa seja outra lição que as pessoas tirem dessa história.

Cine Set (Pâmela Eurídice) – Como foi o processo de trazer essa história para a atualidade?

Mike Flanagan – Uma das grandes descobertas foi perceber como o material original continua relevante. Quando falamos de bullying, crueldade e amizade, esses temas naturalmente se conectam com uma história contemporânea.

Outra etapa fundamental foi trazer adolescentes para a sala de roteiristas e ouvir como são suas vidas, com o que lidam diariamente e como poderíamos representar melhor suas dificuldades e experiências nesta nova versão. Foi um processo de aprendizado incrível para mim.

Mas a grande questão é sempre a mesma: o que devemos trazer, o que precisamos mudar, o que deixar para trás e o que preservar? Tivemos que tomar esse tipo de decisão milhares de vezes até chegar à série que entregamos.

Cine Set (Pâmela Eurídice) – Há muitas referências a livros, como Crônicas Marcianas, The Handmaids Tale. Como foi a escolha dessas obras e qual mensagem você queria passar?

Mike Flanagan – Podemos aprender muito sobre uma pessoa a partir dos livros que ela lê. Por isso, tivemos um cuidado enorme ao escolher as obras que Carrie procura, para que elas revelassem mais sobre quem ela é e como se vê no mundo. O mesmo vale para Tommy e A Marcha dos Crônicos, que, como você observou, também reflete sua visão de mundo.

Um dos meus detalhes favoritos da série é o momento em que Carrie finalmente pode entrar em uma biblioteca e escolher os livros que quiser. Vale observar quais obras chamam sua atenção: são todas proibidas. Para mim, isso é assustador. Uma das coisas mais preocupantes do mundo é a proibição de livros e o silenciamento de perspectivas que poderiam beneficiar justamente as pessoas que mais precisam delas.

Acredito profundamente no poder da literatura e na importância dos livros. Por isso, tivemos muito cuidado para garantir que as obras lidas por Carrie e aquelas mencionadas pelos outros personagens contribuíssem para aprofundar nossa compreensão de quem eles são.

Cine Set (Caio Pimenta) – Brian De Palma transformou a sequência do baile de formatura em uma das cenas mais icônicas da história do cinema. Na sua versão, o que você queria trazer para a cena que parecesse novo, e o que era importante preservar?

Mike Flanagan – Eu me esforcei muito porque a cena de Brian De Palma é clássica e icônica. Não queria chegar nem perto de reproduzi-la. Queria criar algo que fosse inteiramente nosso.

Minha intenção era aproximar as diferentes perspectivas do acontecimento e brincar com o próprio tempo. Queria que o público pudesse voltar atrás e enxergar tudo pelos olhos de diferentes personagens, mas também dissecar o evento, literalmente congelando o tempo e permitindo que os personagens revisitassem aquela memória de maneira tridimensional e imersiva.

Foi uma grande oportunidade de examinar um acontecimento que, na vida real, se desenrola muito rapidamente, mas que precisava ser visto sob os diferentes pontos de vista de todos que estavam naquela sala. Isso me permitiu construir uma sensação de tragédia caleidoscópica.

Provavelmente, foi a sequência mais complexa logisticamente da minha carreira. Tivemos apenas dez dias para filmá-la, com 200 figurantes e 12 atores principais, além de sangue, fogo, água, mesas voando e personagens vivendo, morrendo e concluindo seus arcos dramáticos. Era muita coisa para realizar em tão pouco tempo.

É uma sequência da qual tenho muito orgulho. Também me orgulho de não termos tentado invadir o espaço criado por Brian De Palma. Aquela cena é um espaço sagrado, e não queríamos interferir nele.

Cine Set (Pâmela Eurídice) – Você conta histórias sobre famílias. Na sua opinião, o que torna as relações familiares tão complexas?

Mike Flanagan – As relações familiares estão entre as mais complexas do mundo, justamente porque nossas famílias nos conhecem profundamente. Com outras pessoas, costumamos criar uma imagem de nós mesmos e manter certas aparências, mas deixamos tudo isso de lado quando estamos com a família.

É uma relação de extrema intimidade e vulnerabilidade. Por isso, é onde deveríamos nos sentir mais seguros, mas também onde podemos enfrentar os maiores perigos e decepções. A manipulação e o abuso podem nos atingir de maneira muito mais profunda porque nossas defesas estão baixas.

A família nos permite explorar as relações humanas mais íntimas e bonitas, mas também algumas das mais destrutivas. Ela representa esses dois extremos e, para mim, é sempre fascinante escrever sobre isso.

Cine Set (Pâmela Eurídice) – Cinquenta anos se passaram desde que Stephen King escreveu Carrie, mas algumas temáticas ainda estão vivas hoje como o fanatismo religioso e a crueldade. Como você enxerga a evolução dessas duas temáticas dentro da série?

Mike Flanagan – O fanatismo religioso estava muito mais em evidência quando Stephen King escreveu o livro, nos anos 1970. Hoje, especialmente nos Estados Unidos, esse fanatismo evoluiu e deixou de se limitar à religião. A crença fanática também se politizou, assumindo um caráter quase religioso em relação a ideias que carecem de evidências e dependem da fé para serem aceitas. Isso alimentou teorias da conspiração, os chamados “fatos alternativos” e uma polarização cada vez maior.

Esse foi um dos temas que quisemos aprofundar, mostrando como ele se transformou em nossa sociedade ao longo dos últimos 50 anos.

Da mesma forma, a crueldade e a agressão sempre fizeram parte da experiência humana, assim como a propensão à violência. Mas sinto que, nas últimas décadas, as ferramentas que usamos para exercer a crueldade mudaram radicalmente. A internet e as redes sociais transformaram nosso discurso, nossa política e, acredito, o próprio mundo, normalizando e até celebrando a crueldade de uma maneira que parece muito diferente do que víamos há 50 anos.

Tudo isso me pareceu especialmente importante e relevante para abordar uma história que sempre tratou da escolha que temos entre a crueldade e a amizade. Nunca pareceu tão oportuno falar sobre isso.

Cine Set (Caio Pimenta) – Metade dos episódios de Carrie é dirigida por mulheres, e Justina Ireland atuou como editora de roteiro. De que maneira essa forte presença feminina nos bastidores ajudou você a contar essa história?

Mike Flanagan – Foi essencial para contar essa história, porque, se há duas coisas que não conheço profundamente, são a experiência de ser jovem em 2026 e a de ser mulher no mundo. Queria conhecer e entender essas realidades, mas era fundamental reconhecer que não as conheço. Por isso, foi importante reunir o maior número possível de mulheres brilhantes e criativas no projeto, tanto na sala de roteiristas quanto no elenco e na direção dos episódios.

Acho que todas essas mulheres extraordinárias trouxeram para a série suas experiências pessoais, suas prioridades e suas visões de mundo e do que significa ser mulher. Isso ajudou a transformar a série no que ela é hoje. Foi um privilégio aprender com elas.