Para aqueles que queriam um episódio com dragões e batalhas, foi isso que “The Red Dragon and the Gold” nos entregou, com direito a discussões em alto valiriano, devaneios, espelhamentos entre Negros e Verdes e a perda de uma personagem querida pelo público. Acredito que este episódio funcione entre duplas e indivíduos, por um lado temos interações interessantes entre mães e filhos e irmãos, por outro, finalmente Cole e Daemon me chamara atenção para que tivessem algum espaço nessa crítica. Logo, começo pela dupla de amantes das líderes das facções.   

Devaneios e Ressentimentos 

 

Seguimos fazendo uma viagem por Harrenhal junto de Daemon. Sem o uso de cgi na maior parte das cenas, é interessante como a direção de arte projeta o maior castelo dos Sete Reinos internamente, ofertando não apenas sua imponência, como também a ruína e desolação que o cerca. Daemon parece refletir exatamente esses pontos que ficam mais nítidos conforme afunda-se em seus fantasmas e devaneios. É como se sua estadia servisse de viagem interna a ressaltar os lugares e as pessoas que o traumatizaram, por isso volta sempre a sala do Trono e encontra a jovem Rhaenyra, responsável por tirar-lhe aquilo que achava que merecia.   

Devo confessar que essa construção não tem me agradado. O isolamento do consorte dos Negros tem tornado a narrativa do personagem desnecessária, uma pena considerando como suas histórias paralelas foram importante no arco dos Targaryen na primeira temporada, mas nem mesmo um opositor a altura o irmão de Viserys possui — o que é salientado pelo próprio na cena do tapa-olho.    

Acredito que, se você tem me acompanhado ao longo desta cobertura, deva ser notório o quanto acho dispensável abordar as ações de Criston Cole, porém preciso destacar duas coisas sobre ele em “A dance of dragons”: motivação e atitudes. Desde que Rhaenyra não aceitou viver de coletar laranjas com ele, o chefe da Guarda-Real nutre um ressentimento atmosférico pela Rainha e tudo o que faz é motivado por esse sentimento doentio, que o deixa cego em suas decisões como mãe do Rei. Soma-se a isso, a proximidade maior que tem com Aemond, o tratando como um igual, enquanto ao Rei se junta como mais um bajulador.   

Vamos combinar, sir Criston não é uma boa mão do Rei, talvez seja um bom soldado, mas seus conhecimentos políticos não auxiliam o imaturo Aegon. O episódio nos permite contemplar, de certa forma, a mudança de estágio do personagem, nos mostrando sua confiança em organizar estratégias de batalha e sua inexperiência em enfrentar a ameaça alada e pirotécnica. Nesse momento, somos todos Gwayne Hightower sem entender o plano completo do líder dos mantos brancos, mas observando com atenção seu desespero na busca por Aegon e por se dar conta de que a possível morte do filho de Alicent é o seu maior ato falho enquanto um protetor juramentado. Admito, é ótimo ver o seu olhar de desamparo em busca de Sunfyre e seu montador real.   

Espelhamentos fraternos  

 

Por falar no Rei dos Verdes, chama atenção a dinâmica entre ele e Aemond. O irmão mais novo segue comprovando que está mais apto e preparado para reinar do que aquele que traja a coroa. O filho mais velho de Viserys quer aprovação de todos, mas falta-lhe desde sabedoria, respeito até postura como o titular do Trono de Ferro. Impossível não lembrar, a cada repetição sua de “eu sou o rei”, a icônica colocação de Twyn Lannister: “todo aquele que precisa de autodeclarar rei, não é um rei de verdade”.    

Nesse contexto, o desastroso encontro de Alicent e Rhaenyra reverbera na forma como a viúva de Viserys encara as ações adolescentes do filho e sua incapacidade de governar. Ela busca várias formas de assegurar se cometeu um equívoco, embora seja tarde demais para parar a guerra. Vejo aqui um indício de como será o seu final.   

Prometi, no entanto, falar de Aemond. Influenciado por Cole, o ressentimento parece também motivar o montador de Vhagar, por isso neutraliza o irmão politicamente no conselho e, de certa forma, literalmente. Embora, o filho de Rhaenyra fique depois conhecido como o Desgraça de Dragões, essa alcunha deveria pertencer a Aemond, que só neste episódio tirou de cena dois. A escolha da série de colocá-lo como aquele que deu o comando que queimou seu irmão é interessante, porque mais uma vez ressalta a sua estratégia de ataque e ainda a falta de arrependimento de suas ações. O tempo só o culpa mais pela morte de Lucerys.   

Despedida poética de Rainhas 

 

A batalha, no entanto, culmina na morte de Rhaenys, a Rainha que Nunca Foi. Depois de pleitear tanto a paz e segurar o lado sangue e fogo de Rhaenyra, a esposa de Corlys se voluntaria para ir a Pouso de Gralhas junto com a Rainha Vermelha para enfrentar o exército de Criston Cole, como a montadora de dragão mais experiente em Pedra do Dragão.   

Destaco aqui a parceria entre ela e a filha de Viserys. A troca de olhares entre ambas ressalta a despedida e por quê não o carinho que existe entre elas. Rhaenys é sábia e daria uma boa mão da Rainha, já Rhaenyra é a prova do que a filha de Aemon — filho mais Velho de Jaehaerys I — poderia ter sido se não fosse a sociedade patriarcal westerosi. Não fugiu da guerra e nos entregou uma das mortes mais poéticas do mundo de gelo e fogo da HBO: a parceria entre dragão e montadora e o último olhar trocado entre elas, como se Maelys pudesse realmente se comunicar com a princesa.   

Por fim, mais uma vez a série traz a tona a profecia do príncipe que foi prometido acompanhado da motivação de Rhaenyra de querer o trono para sua descendência como algo bem maior do que só reinar, mas proteger um segredo de salvação mundial. É um momento fraco, considerando o destino de Jace e a forma como a sucessão ao Trono acontecerá, no entanto, preciso destacar a relação existente entre mãe e filho: totalmente oposta às relações firmadas em Porto Real.    

Jace encurrala a mãe em público porque se preocupa com ela, não apenas com a figura de realeza, como no espelhamento Verde. Observem como basta um toque afetuoso — o que não acontece na Fortaleza Vermelha, Alicent mantém-se constantemente a uma distância de Aegon e nunca o toca, embora ele pareça desesperado pela aprovação materna — de Rhaenyra, para que o ambiente mude e as relações familiares prevaleçam sobre as da Coroa. Mais uma vez, a série antagonizando as duas facções e suas figuras centrais.  

Estamos todos de luto, pela Rainha Vermelha e a que Nunca Foi.