Começamos com um ato de violência brutal. Freeze frame (a famosa imagem congelada) na cara do astro. Entra a narração em off. “Desde que me lembro, sempre quis ser um gângster”.
Esse é o início de “Os Bons Companheiros”. O de “Clube dos Vândalos” é basicamente o mesmo com a diferença de que é Kathy (Jodie Comer), a esposa, quem está narrando a história do nosso protagonista, Benny (Austin Butler). É uma decisão interessante, mas o que isso produz? Não muito.
De resto, a estrutura scorseseana se mantém imaculada. Mais um pequeno ajuste: em vez da máfia, um motoclube, os tais Vândalos de Chicago. Por estarmos no centro-oeste estadunidense, e por estarmos em uma motoclube, nossos ouvidos são bombardeados por um sem fim de atores grunhindo em sotaques anasalados. Prato cheio para Tom Hardy, que gosta de tornar sua voz o mais distintamente estranha possível. Aqui ele soa como se alguém estivesse sempre esganando-o, ou como se parte dos cigarros que fuma tivessem ficado presos na sua traqueia. Austin Butler, por sua vez, segue aperfeiçoando seu rosnado de veludo, operando abaixo dos vinte decibéis.
Os Vândalos nada mais são que caipiras de meia-idade tentando colocar algum tempero na vida. Porque homens preferem andar de moto a fazer terapia, a ideia do motoclube se espalha. Logo alguns tipos verdadeiramente lacônicos, como nosso Benny em questão, se juntam à gangue. O jovem, aliás, estará no meio de um cabo-de-guerra entre Kathy e o motoclube.
Enquanto isso, a turma cresce, a violência aumenta e a brutalidade que antes era charmosa deixa de ser tão divertida. É a estrutura de ascensão e queda que conhecemos, então nenhuma surpresa nesse quesito. O que surpreende é o modo como o diretor e roteirista Jeff Nichols faz de tudo para não correr o menor risco sequer. Assim, ainda que sua estrutura beba totalmente das adaptações scorseseanas de livros sobre mafiosos, Nichols deixa de lado a violência, o sexo, enfim, todo o perigo. Até mesmo a pirotecnia técnica, que tantos já copiaram, ele deixa de lado.
E que fique claro que o ponto não é que Nichols deveria imitar o veterano ainda mais, mas sim que “Clube dos Vândalos” não fede nem cheira. É como se no espaço que sobra depois de todas as suas referências fáceis, Nichols não conseguisse injetar nenhuma grama de personalidade própria.
A FAGULHA INOMINÁVEL E SALVADORA
O que sobra? Bom, apesar dos pesares, Nichols é um bom roteirista que escreve bons personagens. Pegue a cena já próxima ao final, em que Hardy e Comer dizem um tanto de coisas sem dizer realmente nada. É o tipo de cena que é um prato cheio para os atores.
No fim o que temos é isso, um bom elenco cumprindo hora extra nas suas caracterizações carregadas. Não fique com a impressão de que “caracterizações carregadas” implica algo ruim: aqui estão astros de cinema, ora bolas, e não assistimos a essas figuras na telona pelo tanto de “realismo” que trazem à tona. Não, eles são astros justamente por possuírem aquele je ne sais quoi, aquela fagulha inominável de magnetismo capaz de guiar nossos olhos ao longo de um telão de 20 metros. E por isso, nos entregamos. Já é o bastante.













