Os irmãos Benny e Josh Safdie são conhecidos por fornecerem oportunidades inusitadas para atores que, apesar de muito famosos, não costumam ser muito levados a sério pela crítica especializada devido ao tipo de produção em que costumam participar. Nessas empreitadas, os diretores acabam por dar redenção a essas estrelas. O primeiro caso foi em Bom Comportamento (2017), em que Robert Pattinson surpreendeu bastante em um papel que nada lembrava o Edward da saga Crepúsculo; a partir dali, aliás, entrou em uma trajetória ascendente de prestígio como ator. O segundo foi no maravilhoso Joias Brutas (2019), em que Adam Sandler surpreende como um trambiqueiro viciado em apostas, em uma performance cheia de nuances que não se vê em suas habituais comédias de gosto cada vez mais duvidoso; sem dúvida, o trabalho mais admirável do ator.

Aqui em Coração de Lutador, escrito e dirigido apenas por Benny Safdie, é a vez de Dwayne Johnson dar as caras em um trabalho mais dramático, diferente dos blockbusters de ação que costuma estrelar. E o resultado, porém, se destaca mais no visual do que pela atuação em si. Não que The Rock esteja mal; ele está convincente no papel do lutador de MMA Mark Kerr, exibindo uma expressividade mais notável e conduzindo bem a linha emocional do filme. Porém, é evidente que a imponência física do astro chama bastante a atenção e é bem explorada pela direção, assim como as coreografias de lutas e a tensão das mesmas. Novamente o duas vezes ganhador do Oscar, Kazu Hiro, realiza um notável trabalho de maquiagem a partir de próteses que transformam o rosto de Johnson com direito a uma peruca, deixando o ator quase irreconhecível. Isso sem falar nas feridas e hematomas no rosto, perfeitamente realizadas.  

Com seu habitual carisma, Johnson exibe uma performance capaz de transitar bem entre os momentos mais agradáveis e os mais problemáticos da vida de Kerr. Ao mesmo tempo em que traz confiança e dedicação, Kerr tem momentos de negligência e egoísmo devido ao vício que passa a adquirir por opioides. O roteiro o estabelece bem apresentando-o em sua glória, em uma posição de prestígio no mundo do MMA, quando era um vitorioso invicto até ser frustrado por uma luta cujo resultado foi tido como indefinido. A boa introdução faz com que sintamos essa “derrota” junto com ele devido ao peso emocional que isso acarreta ao protagonista (tá vendo aí, Superman? Cof-cof). 

A trilha sonora de Nala Sinephro se destaca neste momento com seu piano enigmático e harmonias ruidosas, sinalizando bem a negação e o estado de confusão do lutador, ao passo em que fica melódica em outros momentos mais calmos. Coração de Lutador segue de forma fluída, mostrando como as atitudes pessoais de Kerr acabaram afetando seu desempenho, por sua vez o levando mais ainda a recorrer ao uso de opiodes até sofrer algo grave e precisar se afastar das lutas. Vale destacar ainda Emily Blunt ótima como Dawn Staples, esposa do protagonista. A postura e até mesmo o penteado e figurinos evidenciam seu caráter “dondoca” e meio boêmia, o que dá origem para algumas das crises do protagonista. O dilema entre a dedicação física de Kerr e seu relacionamento amoroso é bem retratado, sendo o roteiro eficiente em mostrar as sutis insensibilidades do casal como uma problemática mútua com interessantes reviravoltas.  

Apesar do roteiro deixar lacunas ao não explorar tanto sobre o relacionamento dos personagens, as  cenas de brigas chegam a um clímax que constitui a melhor cena do longa, em que Kerr utiliza sua força poderosa para impedir uma tragédia de acontecer, e não meramente como forma de ataque dentro de um ringue. Não menos impactante é a cena em que o lutador socorre um colega que contrai uma dor absurda durante um treino, revelando algo sobre a natureza dos hábitos dele próprio. De tal modo, Coração de Lutador se permite tocar em aspectos problemáticos do “esporte” – e eu digo isso realmente entre aspas, por motivações pessoais mesmo, ao me referir a uma prática cultural em que socos violentos desferidos contra a cabeça de uma pessoa possa ser considerado objeto de entretenimento.

Com uma mensagem interessante ao final, que foge dos clichês do gênero esportivo e que vem sendo mais abraçado em filmes assim, Coração de Lutador é uma boa pedida edificante para um passatempo sem expectativas tão altas, competente, mas que não chega a ser tão impactante e memorável.