“Eu sempre dependi da bondade de estranhos”, diz um dos trechos mais reverenciados de Tennessee Williams para “Uma Rua Chamada Pecado”. De um compositor bêbado em bar à uma senhorinha segurando uma vela, é basicamente assim que o sambista Espírito da Luz enfrenta seus últimos dias em “Rio, Zona Norte”.

Dirigido por Nelson Pereira dos Santos, o longa conta a história do humilde sambista Espírito da Luz, um homem abatido por inúmeras tragédias pessoais, mas que não perde o sorriso. Um dia, ele cai de um trem lotado da Central do Brasil e fratura o crânio. Em um entrecho semelhante à “Crepúsculo dos Deuses” (1950), ele relembra os últimos meses de vida, a luta para ter seus sambas gravados e interpretados por grandes artistas e as trapaças do falso parceiro. 

“Rio, Zona Norte” é uma obra-prima absoluta do cinema nacional: filmado quase como um documentário, a câmera percorre becos, trens e morros, mas o que se vê não é a miséria do povo, mas a busca incessante de realização e de reconhecimento. O protagonista Espírito da Luz, em um tour de force de Grande Otelo, encarna o artista popular injustiçado, dono de um talento imenso e de uma vida marcada pela luta para ser levado à sério. A inocência e a perseverança de da Luz comovem o espectador, enquanto seu otimismo encanta a todos. 

A fotografia em preto e branco reforça a atmosfera de realismo e melancolia, enquanto a trilha é poderosa. Repleta de sambas compostos exclusivamente para o longa, é em diversos momentos o fio condutor da narrativa. Seu encontro com Ângela Maria, considerada a “Rainha do Rádio, em que ela concorda em gravar um de seus sambas, está entre uma das mais belas do cinema. É emoção pura após uma sequência de tragédias na vida de Espírito. 

Espírito da Luz vê seu filho ser assassinado, sua mulher o abandonar e ainda abre mão de sua composição, caindo em um golpe que ele já imaginava, mas não podia ou não tinha mais forças para lutar contra, contrastando com o seu início alegre e otimista. O roteiro original de Nelson Pereira, entrelaça a vida pessoal e a obra musical do personagem com um Brasil no auge da urbanização dos anos 1950. O diretor coloca o protagonismo a quem antes era retratado apenas como pano de fundo: o povo negro, pobre e criador de cultura. “Rio, Zona Norte” é também um gesto político, que confronta a desigualdade e celebra a força criadora das favelas. 

E quando tudo parece finalmente se alinhar para da Luz, ele embarca em seu derradeiro final. De seus sambas escritos praticamente descartados por aqueles que o resgatam dos trilhos do trem, é seu amigo Moacir, lá do início, quem buscar eternizar o nome de “Espírito da Luz”. “Rio, Zona Norte” é uma obra atemporal, que fala de arte, exclusão e resistência. É um retrato de um Brasil que insiste em cantar, mesmo quando tudo ao redor parece emudecer.

Autor

  • Graduado em jornalismo, mas verdadeiramente apaixonado pelo audiovisual e a arte de contar histórias. Detentor de uma modesta, mas rara coleção particular de Blu-rays e DVDs, iniciada em 2016 com um filme polêmico, mas um dos favoritos: “E o Vento Levou”.

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