É interessante acompanhar as trajetórias de atores e atrizes que ficam famosos interpretando super-heróis no cinema, e depois ver para onde as carreiras deles vão quando deixam seus papéis heroicos. Porque, vamos falar a verdade: por mais que a internet debata sobre qual foi o melhor Homem-Aranha, por exemplo, ninguém foi ver os filmes do herói aracnídeo por causa do Tobey Maguire, ou do Andrew Garfield, ou do Tom Holland. As pessoas vão ver filmes de heróis por causa dos personagens e do conceito, não por causa dos atores.
O que nos traz a Gal Gadot e seu novo filme, Corrida Contra o Tempo. A atriz, que ficou famosa mundialmente como a Mulher-Maravilha no cinema, volta aqui num projeto que, na teoria, é perfeito para as suas habilidades: exige dela uma atuação física, de mulher forte, na qual ela corre, pula e faz cenas perigosas – ou pelo menos, dá a impressão de fazer. Nesse sentido, o filme é um sucesso, porque a atriz faz jus ao que é exigido fisicamente dela.
Porém, em todo o resto, Corrida Contra o Tempo é um desastre, mais um daqueles filmes de algoritmo que parece ter sido criado por uma inteligência artificial que pegou elementos de filmes melhores e os misturou numa maçaroca. E Gal, coitada, continua uma atriz muito limitada: ela até foi bem quando começou como Mulher-Maravilha, mas com o tempo parece ter piorado como intérprete – o já famoso “Kal-El, no!” não virou meme por acaso. O diretor Kevin Macdonald insere closes da atriz, vivendo uma mulher que supostamente teve o filho sequestrado, nos quais ela tenta fazer umas expressões de desespero e de novo o resultado é engraçado, de maneira involuntária.
Mas verdade seja dita, a culpa não é só dela: Na trama, Gal interpreta uma advogada linha-dura que, durante a sua corrida matinal, recebe uma ligação telefônica de uma voz misteriosa – do ator Damian Lewis – que lhe diz que seu filho foi raptado. Para tê-lo de volta, ela vai ter que percorrer Londres a pé para cumprir uma tarefa que envolve a testemunha de um caso.
Se você viu meia dúzia de suspenses na vida, já consegue para adivinhar para onde essa história vai: É uma mistura de Corra, Lola, Corra (1999) com pitadas de Por Um Fio (2001) e um final que tenta imitar Os Suspeitos (1995), mas que também parece ter sido concebido por alguém que não faz a menor ideia de comportamento humano básico – saudades de você, Keyser Soze…
Aliás, a trama toda não faz o menor sentido, e por causa disso Macdonald – que já fez bons filmes como Um Dia em Setembro (1999) e O Último Rei da Escócia (2006) – o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle e o montador Matt Villa jogam praticamente todo o tipo de truque visual na tela para manter a atenção do público e dar a impressão de que alguma coisa está acontecendo: montagem frenética, closes, planos aéreos, planos de telas de computador, e em dado momento uma “rebobinada” em algo que acabamos de ver. No entanto, tudo é tão acelerado que o filme perde o senso de geografia ou de drama – o roteirista tenta incluir um traumazinho no passado da protagonista, mas isso é tão jogado na história que parece uma tentativa sem-vergonha de forçar profundidade ao enredo.
Tudo isso, somado à fotografia digital ultra-iluminada, dá a Corrida Contra o Tempo um aspecto descartável, de comercial de margarina transformado em filme da semana. Em algum lugar, os envolvidos tentaram incluir no filme algum tipo de comentário sobre a nossa dependência da tecnologia: afinal, o vilão descobre basicamente a vida toda da heroína pesquisando as suas redes sociais ou hackeando seu computador, e há até uma alfinetada contra inteligência artificial em um momento. Mas fica tudo perdido em meio a correria e à trama que não faz sentido.
Aliás, apesar de toda a correria, na verdade pouca coisa acontece – ao menos os cineastas mantêm o filme curto, com 86 minutos. Corrida Contra o Tempo não consegue ser nem um bom suspense, nem uma diversão cafona para um sábado à noite. E no centro de tudo, temos uma atriz que, embora corra na tela, está com a carreira parada no mesmo lugar e não há muitas perspectivas sobre para onde ela possa ir. Ao longo dos anos, alguns conseguiram fazer uma boa transição do estrelato super-heróico para uma nova fase de carreira: Será que Gal Gadot vai conseguir? Aqui, ao menos ela fez um bom exercício.













