O diretor Cristiano Burlan foi parte importante da última encarnação vivida por Jean-Claude Bernardet, aquela como ator. Em um dos filmes que fizeram juntos, “Fome”, o saudoso crítico e cineasta interpreta um morador de rua. Foi com curiosidade, portanto, que adentrei a sessão deste “Nosferatu”, onde, além de Bernardet, em seu último papel no cinema, Burlan reencontra Helena Ignez, outra colaboradora frequente.

Sumarizar os acontecimentos do longa seria um esforço pueril; não se trata disso aqui. O que podemos dizer é que a primeira coisa que vemos é um gigantesco cargueiro rasgando a madrugada, onde, supõe-se, o vampirão do título viajou do leste europeu para esta nossa Terra Brasilis. Daí por diante, o dentuço irá pipocar em palcos mambembes, travará conversas sobre teatro e cinema e será acossado por Van Helsing.

Como Nosferatu pedantemente nos recorda (e se a recordação é necessária, é porque ele sabe estar em maus lençóis), não é preciso “entender” uma obra para apreciá-la. Com isso estamos de acordo. De fato, não se pode dizer que o filme não nos entrega aquele mais simples dos prazeres, o de olhar para uma imagem evocativa. O problema é sua irregularidade.

Mas fiquemos com os prazeres: quem de nós poderá negar os efeitos da belíssima fotografia em preto e branco, liricamente digital e altamente ruidosa? Ou do ocasional close-up extremo, revelando cada pelo e cada poro dos atores em alto contraste? E aqui vai mais uma série de imagens evocativas: o vampirão correndo à la Denis Lavant em “Mauvais Sang” pela noite, ou Helena Ignez abocanhando o pescoço de Bernardet, ou Nosferatu envolto em luz vermelha, empenhado no que só pode ser descrito como uma coreografia saída diretamente de algum clipe da cena industrial dos anos 1990.

O problema é que, para cada cena que funciona, há umas cinco que são um porre. O filme só tem 80 minutos, mas parece ter o dobro. Que Burlan tem uma cabeça cheia de ideias, está claro. Mas ele não parece saber como se engajar com elas de forma particularmente interessante ou, mais importante, como nos convidar a debatê-las e experienciá-las consigo.

Não se trata, está claro, de compreender ou não o filme. Mas há um limite para o número de solilóquios que um sujeito pode aturar antes de mandar as Artes Cênicas às favas. Para nosso azar, “Nosferatu” está prenhe deles, cada um mais vago e pseudo-filosófico que o último. Um ou dois, parece-me, são proferidos pelo próprio diretor, em off. Ele é uma máquina giratória de citações, mas o esforço mais irrita que instiga. É como se Burlan estivesse sempre lá, atazanando a gente enquanto se trepa ao nosso pescoço. E eu particularmente gosto do meu espaço pessoal.

Como nota final: não, recriar a imagem icônica de Helena Ignez cuspindo sangue em “Família do Barulho” não o absolve de seus pecados. Na verdade, piora sua situação: não me faça lembrar de um filme bom enquanto assisto a uma obra bem mais ou menos (estou sendo generoso, inclusive).