O filme que a Warner não queria que você visse. Essa frase resume bem a trajetória pregressa de Coyote vs Acme antes de finalmente estrear nos cinemas. Engavetado pelo estúdio através de um abatimento fiscal, a obra estava fadada a nunca ser lançada. Entretanto, a comoção de fãs, os profissionais envolvidos na produção e a própria indústria pressionaram a Warner para reconsiderar a decisão e vender os direitos de distribuição do longa. Dentre muitas interessadas, a Ketchup Entertainment acabou adquirindo o filme. Surpreendentemente, toda essa novela teve um final feliz, com um longa carregado de criatividade e mordacidade satírica.

Depois de anos de fracassos em sua incessante perseguição ao Papa-Léguas, Coyote decide recorrer ao advogado Kevin Avery para processar a Acme, empresa onde comprava suas bugigangas. Já pela premissa, a obra esbanja uma dinâmica interessante ao revisitar todo o legado do personagem Coyote. Logo no início, o filme presta um tributo a toda a sua história, trazendo cenas e momentos divertidos do Coyote falhando repetidas vezes em seu objetivo das maneiras mais adversas possíveis.

Mesmo aquela figura decadente e digna de pena, a expressividade do Coyote transmite uma vivacidade ímpar. Mesmo sem dizer uma palavra, o personagem é carregado de humanidade e muito carisma. O filme faz um raio X da sua vida, mergulhando em sua psique, na relação com o Papa-Léguas e na perseverança de nunca desistir. A estética cartoon 2D traz um clima vintage e possibilidade cômicas hilárias como quando o Coyote passa pelo detector de metais ou quando se comunica pelas placas.

Não muito distante, o advogado Kevin Avery, interpretado por Will Forte, traça um paralelo ao Coyote. Ambos buscam atingir sucesso em suas metas, mas são resultado de suas falhas. A personalidade impaciente dele contrasta com a determinação e jovialidade de sua sobrinha Paige, de Lana Condor, construindo uma relação interessante de perspectivas. Ao longo do processo, ele entende a necessidade de combater as injustiças ao mesmo tempo que aprende a ter um olhar mais genuíno aos personagens animados.

Apesar da energia lúdica de desenho animado, há uma seriedade na narrativa. O diretor Dave Green equilibra bem esses dois pontos, mirando em uma estrutura parecida ao clássico Uma Cilada para Roger Rabbit, só que adaptada para uma trama jurídica. O objetivo é criar uma sátira aos filmes de tribunais, inserindo elementos característicos desse estilo e brincando com eles, como nos letreiros iniciais e finais, na escrivã escrevendo cada palavra da audiência, na busca por evidências ou nos embates argumentativos nas audiências.

Em seu âmago, o roteiro promove um comentário crítico à ganância capitalista e do monopólio do mercado. A Acme e sua variedade de produtos simbolizam a desumanidade e práticas abusivas das mega corporações. O personagem de John Cena serve como a caricatura desse modelo. Além disso, o longa traça uma analogia inteligente sobre o uso de cobaias em testes de qualidade de produtos, associando os desenhos a essa temática, mostrando que a vida dos desenhos não tem o mesmo valor que a humana numa clara ligação com o papel dos animais na vida real.

A grande ironia é como toda essa abordagem se interliga com o próprio filme na realidade. Um azarão lutando para ter o seu direito garantido enquanto uma grande empresa o oprime. As semelhanças se entrelaçam numa metalinguagem debochada, funcionando como um espelho da situação e do benefício de existir como obra cinematográfica. O Coyote é a representação do filme e assim como ele, insistiu em sobreviver. Toda essa leitura dá mais impacto e força para a vitória do filme em poder ser lançado.

A forma como Dave encaixa e explora o enorme catálogo de personagens dos Looney Tunes na trama é bem diversificado, lembrando muito Looney Tunes: De Volta a Ação. Cada personagem tem seu momento para brilhar, exceto um que tem uma vilanização desnecessária. Na ação caótica e criativa, ele coloca diversas referências sutis em nomes de personagens e participações especiais. Entretanto, o ato final não escapa da previsibilidade, todos os acontecimentos já são esperados, sem muitas surpresas. Ainda assim, o tom sentimental ganha espaço na conclusão, em uma cena encantadora entre Coyote e Papa-Léguas.

Envolto de uma história de bastidores que ficará cravada na memória da indústria cinematográfica, Coyote vs Acme é uma marca de resistência e sobrevivência artística em um mundo predatório. Com bom humor e astúcia, o filme assume sua natureza paródica desde o princípio ao mesmo tempo que trabalha uma jornada pessoal, respeitando a franquia. Graças aos Deuses do cinema e a união dos fãs, da equipe de produção e diversos profissionais do meio, esse crime não é cometido. Este filme é uma prova incontestável que além da Acme, o Coyote deveria processar também a Warner por quase privar o espectador do filme incrível que é.