Grace Passô estreia na direção de longas-metragens com Nosso Segredo, adaptação de sua própria peça Amores Surdos, escrita em 2006. O filme parte da ausência de um pai para investigar as diferentes formas como uma família lida com a perda, acompanhando personagens de gerações distintas confinados em uma mesma casa.

A casa, aliás, ganha papel central na construção do filme. Pensada como um personagem, ela se transforma junto com aqueles que a habitam, enquanto a fotografia e a direção de arte exploram frestas, corredores, luzes e espaços para traduzir sentimentos que muitas vezes não são verbalizados.

Premiado como Melhor Filme no Festival de Gramado, Nosso Segredo também se destaca pela aposta em uma linguagem que desafia padrões e pela presença majoritária de atores negros no elenco. Em entrevista ao Cine Set, Grace Passô fala sobre a transição do teatro para o cinema, a construção dos personagens, a casa como elemento narrativo e a emoção de ver seu primeiro longa vencer o principal prêmio de Gramado.

Cine Set – Nosso Segredo provém da peça Amores Surdos, grande sucesso teatral de sua autoria, de 2006. Em que momento você enxergou que era possível voltar a este texto para torná-lo seu primeiro longa como diretora?

Grace Passô – Várias vezes surgiu essa ideia, esse desejo de fazer um filme. Mais para frente, junto com o Ricardo Alves Jr., a gente dirigiu uma versão cinematográfica de um solo teatral que eu tenho, chamado Vaga Carne. E essa experiência foi muito legal para mim, porque me aproximou muito do universo audiovisual e só ressaltou o desejo de fazer a direção de um longa.

A ideia de fazer alguma coisa com Amores Surdos já rondava a minha cabeça, mas, mais tarde, o Ricardo trouxe essa ideia de um jeito mais concreto e decisivo. E aí partimos para isso. Entrei em um laboratório, o BR Lab, na época da pandemia, em 2020, se não me engano. O laboratório foi muito importante, porque saímos de lá com muitas ajudas e prêmios para começar o projeto.

E aí foram seis anos desde lá até aqui, até a gente estrear esse filme.

Cine Set – Gostaria de falar um pouco do seu trabalho com aquela casa, na criação daqueles universos muito particulares de cada personagem. Locais que, assim como os personagens, parecem ilhas, ainda que não desconectadas uma das outras, com suas particularidades. Como foi trabalhar este espaço para o cinema? Qual foi o maior desafio junto com a Wilssa Esser, diretora de fotografia?

Grace Passô – A casa é um personagem no filme. Desde o início, o objetivo era fazer com que ela falasse de alguma forma. Tudo tem muito a ver com a ideia de vazar: coisas vazam concretamente dessa casa, mas também os olhares, como se a câmera estivesse observando através de frestas, por onde fosse possível vazar e observar.

Esse personagem-casa nos ajudou muito a conversar entre direção de arte e direção de fotografia. Os signos que permeiam uma casa são muito comuns entre nós: os cômodos, o significado da luz e como ela pode revelar também esse sentimento de ausência. Como você falou dos personagens-ilha, a questão era pensar que imagens poderiam ser criadas dentro dessa casa para revelar também os sentimentos desses personagens.

No final das contas, a casa foi muito agregadora para a conversa das equipes, porque tínhamos um lugar muito delimitado, mas que está presente no nosso imaginário e na nossa memória. As casas se transformam a partir de determinados acontecimentos e tragédias cotidianas. Por isso, o processo com a direção de fotografia e com o Lucas Osorio, na direção de arte, foi muito intenso, principalmente porque a casa se transforma radicalmente. Fizemos um estudo profundo de como construir essa transformação.

Ao mesmo tempo, é uma casa com muitos personagens, muitas ilhas. A câmera, muitas vezes na mão, tem uma respiração muito evidente, e existiam também alguns limites para a movimentação. A estrutura de luz estava muito concentrada no teto, o que impedia a câmera de ocupar alguns lugares. Ao mesmo tempo, queríamos criar a sensação de uma câmera muito livre pela casa, que às vezes até se perdesse de forma meio labiríntica pelos cômodos.

Cine Set – “A gente sente saudade, é uma entidade. Aquela coisinha que você não sabe porque está em ti, mas, está lá”. Chama muito minha atenção como você constrói estes sentimentos individualmente com os personagens e também no sentido coletivo. Gostaria que você falasse sobre como foi pensar o roteiro e trazer isso para a execução em cena deste sentimento tão confuso e dolorido em todos nós.

Grace Passô – Mergulhei exatamente nesses dois movimentos: tanto entender a trajetória de cada personagem quanto construir, a partir deles, um retrato múltiplo das formas como a ausência de alguém tão importante reverbera dentro de uma família. São muitos personagens justamente para mostrar essas diferentes maneiras de lidar com essa perda.

O que sempre me guiou, em relação aos personagens, foi o fato de que cada um, naquele momento do filme, está fugindo dessa ausência, desse sentimento avassalador. Cada um encontra uma forma diferente de fugir. Quando alguma coisa trágica acontece, quando uma perda muito grande acontece na nossa vida, a gente também passa por etapas diferentes de fuga, mas também de encorajamento e de elaboração.

Então, cada personagem está fugindo de uma forma diferente, e o modo como cada um faz isso tem a ver com sua geração e sua idade. Existe sempre um aspecto que representa algo socialmente: o que é o homem mais velho da casa quando a família perde o pai, o que é a pessoa que está elaborando o amor, o que isso significa para uma criança. Existe um aspecto específico de cada personagem, mas a história também tem algo épico e metafórico, que, no fundo, fala de coisas maiores e comuns às nossas vidas em família.

22/08/2026 – 54º Festival de Cinema de Gramado – Melhor Filme Longa-Metragem Brasileiro, “Nosso Segredo”, de Grace Passô, entregue pela analista de patrocínios culturais da Petrobrás Elen Soares | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Cine Set – Durante a reta final da cerimônia de premiação em Gramado, tudo parecia convergir para uma vitória total de Feito Pipa após levar ator coadjuvante, atriz, direção, júri popular. Quando você escutou Nosso Segredo em Melhor Filme, como foi a sua reação? 

Grace Passô – Primeiro, dá para estar confiante, porque são mil sonhos que estão ali dentro de uma sala. Um filme é sempre o projeto da sua vida, mas também envolve muitas pessoas que estão colocando ali os projetos das próprias vidas. Então, é sempre uma perspectiva.

Eu tinha a noção de que Nosso Segredo é um filme arriscado. Ele foi feito para ser arriscado, porque eu também queria arriscar. É um filme que desafia algumas coisas, que é afrontoso muitas vezes, e tem características que, no mundo de hoje, são muito corajosas. Então, também existe o risco de ser mal interpretado. Nunca tenho certeza, tanto que às vezes nem vou às premiações porque elas me deixam muito confusa.

Mas foi muito bonito, e acho que não é à toa que houve uma reverberação tão grande. O nosso filme concorreu em um ano com filmes muito bons, cineastas com trabalhos muito sérios e produções incríveis. E acho que foi uma cerimônia muito importante, especialmente porque o nosso filme é majoritariamente protagonizado por atores negros e dirigido por mim, em um ano que também premiou muitos atores e atrizes negros. E premiou porque era quase impossível não premiar, mostrando que a produção desses artistas é uma produção de excelência.

Acho que existe uma emoção ligada a isso, porque muitas das pessoas que foram premiadas, assim como nós, trouxeram uma contribuição muito efetiva para o próprio pensamento do festival. Eu arriscaria dizer que foi uma edição histórica, pelo nível das produções, dos artistas e de quem recebeu as premiações.

E também pelo nosso filme ter assumido um posicionamento em relação à linguagem. Por mais que se fale muito sobre diversidade de linguagens, gêneros e pessoas, vivemos um tempo muito padronizador. Nosso Segredo desafia padrões, arrisca e propõe instaurar sensações por caminhos que não são os já conhecidos, justamente em um tempo de ansiedade em que isso é muito difícil de trabalhar.

Fiquei muito emocionada e não sabia que ia ganhar. Às vezes a gente sabe, às vezes avisam, mas dessa vez eu realmente não sabia. Estava preparada, e a única coisa de que tinha muita certeza era desse trabalho. Tenho muita certeza de que era o que eu queria fazer. Esse filme, para mim, é como um filho que fiz com muita consciência, coletivamente, com muita consciência e muita coragem.