No dia 8 de fevereiro de 1977, um crime chocou a região de Indianápolis, no estado de Indiana, nos Estados Unidos. Tony Kritsis invadiu armado o escritório de uma corretora imobiliária com o objetivo de sequestrar o proprietário. A motivação, segundo ele, estava ligada a um suposto esquema de fraude comercial que o teria deixado perto da falência. O plano, no entanto, toma outro rumo quando é recebido por Richard Hall, filho do alvo. A nova vítima acaba sendo levado, preso a uma espingarda acoplada ao pescoço por um dispositivo de segurança.
Quase 50 anos depois do ocorrido, Gus Van Sant retoma esses acontecimentos em Dead Man’s Wire. O thriller aposta em uma ambientação minuciosa e em uma condução inicial que organiza os eventos de forma linear, fazendo com que a tensão se construa aos poucos. A direção permite que o espectador perceba, de maneira ampla, cada espaço daqueles eventos. Ao mesmo tempo, articula as reações da polícia e da imprensa, cujas decisões se mostram, por vezes, no mínimo controversas.
A trilha sonora surge como um elemento essencial na construção dessa atmosfera, reforçando uma marca já conhecida na filmografia de Gus Van Sant. Logo nos primeiros momentos, as presenças de Cannock Chase e Labi Siffre estabelecem o tom do filme e amplia sua imersão. Essas músicas tocam diretamente no rádio que acompanha Tony ao longo do dia. É a partir desse contexto que somos apresentados a Fred Temple, interpretado por Colman Domingo, que, mesmo com pouco tempo de tela, demonstra carisma e domínio da dinâmica de seu personagem, especialmente ao assumir a responsabilidade de intermediar o contato com o sequestrador e colaborar com a operação policial.
Ainda que a presença de Colman Domingo agregue energia e segurança às cenas em que aparece, o mesmo não pode ser dito de Bill Skarsgård no papel de Tony Kritsis. O ator até demonstra empenho em sua composição, mas não consegue imprimir ao personagem a profundidade e o tom que a narrativa exige. Mesmo com o filme estabelecendo a ambiguidade de suas motivações, de um homem movido pela sensação de injustiça após ter sido vítima de um golpe, sua atuação não transmite as nuances necessárias para sustentar essa complexidade. Isso acaba enfraquecendo o impacto da história.
Por outro lado, quem acaba roubando a cena em diversos momentos é seu rival, Dacre Montgomery. O ator encontra equilíbrio ao retratar as emoções de um personagem que se vê, de forma inesperada, no centro de um sequestro que se prolonga por dias. Sua performance transmite com eficácia a pressão psicológica e uma aflição que se intensifica de maneira gradual e silenciosa. Sem qualquer culpa por estar naquela situação, sua condição de refém é marcada por um desgaste emocional progressivo, que vai, pouco a pouco, minando qualquer resquício de otimismo.
Na condução geral do filme, Gus Van Sant mostra firmeza ao organizar a sucessão dos acontecimentos, evitando que um evento tão caótico se transforme em uma narrativa confusa. Há um cuidado evidente em tornar compreensível a forma como cada núcleo, polícia, imprensa e envolvidos diretos, se movimenta ao longo daqueles dias sufocantes. Isso permite perceber como certas decisões reverberam em consequências inevitáveis. Muito disso também passa pela montagem de Saar Klein, que dá ritmo e clareza ao desenrolar dos fatos sem comprometer a tensão e o senso de urgência.
Ainda assim, fica a sensação de que o filme poderia ter ido além ao explorar a comoção pública em torno do caso. Ao pesquisar o ocorrido posteriormente, chama atenção o apoio que Tony recebeu de parte da população, que via em sua figura um reflexo das frustrações da classe trabalhadora. É uma camada que o longa apenas tangencia, mas que poderia enriquecer significativamente a leitura do personagem e ampliar o alcance social da narrativa.












