Seis episódios de cerca de 40 minutos são suficientes para manter o espectador preso em Dele & Dela, nova minissérie da Netflix estrelada por Jon Bernthal e Tessa Thompson. Preso, mas não exatamente envolvido. A produção sabe administrar tensão, constrói expectativa e entende o funcionamento básico do suspense serializado contemporâneo, ainda que tropece com frequência em episódios mais lentos e em um roteiro que parece sempre economizar informações para inflar artificialmente o clímax.

Há um cálculo claro em jogo: a minissérie engasga em determinados momentos, desacelera quando não deveria, repete situações e diálogos, mas faz isso apostando que o acúmulo de frustração será recompensado no final. Em parte, funciona. Conforme a narrativa se aproxima do último episódio, o desejo de saber o que vai acontecer se impõe. Não porque os personagens sejam particularmente complexos, mas porque o mistério é esticado ao limite. É uma lógica típica do streaming, uma dramaturgia de retenção que se sustenta mais pela curiosidade do que pela densidade.

Nesse sentido, Dele & Dela se encaixa perfeitamente na categoria do produto fast food da Netflix, com forte cheiro de fanfic. A minissérie poderia facilmente existir como uma thread viral, dessas que acumulam leitores ávidos por reviravoltas cada vez mais absurdas, acompanhadas de comentários indignados ou eufóricos. Tudo é pensado para provocar reação, não reflexão. O roteiro não se interessa em aprofundar seus temas ou personagens, apenas em empurrar a narrativa de plot em plot, como se dissesse ao espectador que tudo o que importa está logo adiante.

Jon Bernthal encarna Jack, um detetive impulsivo, agressivo e bobão, mais próximo de uma caricatura do durão em desconstrução do que de uma figura verdadeiramente complexa. Ele age por instinto, resolve conflitos na base da porrada e toma decisões questionáveis com uma constância quase cômica. Há momentos em que sua incompetência chega a soar involuntariamente risível, como quando não consegue desbloquear um celular para sua própria investigação.

Curiosamente, apesar de todo o marketing e do tempo de tela dedicado a Bernthal, Dele & Dela não é sobre ele. Até o quinto episódio, tudo parece girar em torno de Jack, de sua investigação e de seus impulsos, mas a série lentamente revela que ele é, na verdade, um falso protagonista. Sua função é ocupar espaço enquanto o verdadeiro eixo dramático se constrói em silêncio.

Esse eixo é Anna, a personagem de Tessa Thompson. Quando ela entra em cena, a série finalmente ganha densidade. Há algo nela que instiga, uma opacidade que convida o espectador a tentar decifrá-la. Diferente de Jack, que se apresenta por inteiro a cada fala, Anna guarda silêncio, ambiguidade e um desconforto constante. Sua melancolia não é apenas consequência de um trauma específico, mas um estado permanente, um modo de existir. Mesmo quando parece segura, afiada ou implacável no exercício do jornalismo, há sempre a sensação de que algo está sendo escondido.

Tessa Thompson sustenta essa ambiguidade com precisão. Sua atuação é contida, mas carregada de tensão interna, e se impõe como o verdadeiro destaque da série. A história ganha força justamente na relação entre Anna e Jack, não pelo romance em si, mas pelo passado compartilhado e pelas lacunas que cercam essa conexão. O que aconteceu entre eles, o que ela esconde e por que permanece emocionalmente paralisada são perguntas mais interessantes do que o mistério policial em si.

O suspense, por sua vez, funciona melhor quando se aproxima do final. A série sabe criar atmosfera, manter uma sensação constante de peso e gravidade, e não economiza em cenas longas, silenciosas e carregadas. Há uma tensão contínua que, mesmo cansativa em alguns episódios, cumpre sua função básica. Dele & Dela não é uma série ruim em construir expectativa. Ela apenas confunde expectativa com profundidade.

O problema maior surge na grande reviravolta final. Forçada, exagerada e completamente alinhada à lógica da fanfic e da novela, a resolução aposta no choque como atalho emocional. É uma catarse que funciona momentaneamente, mas que se esvazia rápido. O impacto do que acontece é grande, mas a forma como é apresentado é tão artificial que o peso se perde. Não é um final memorável, apenas barulhento.

Há também uma promessa temática que nunca se cumpre totalmente. A minissérie flerta com uma crítica à mídia, aos casos midiáticos e à exploração da dor como espetáculo, especialmente através da profissão de Anna. No entanto, à medida que o desfecho se torna mais intimista, esse aspecto é completamente empurrado para segundo plano. A reflexão existe, mas é superficial, nunca se desenvolve a ponto de gerar incômodo real.

As cenas de sexo seguem o padrão pouco inspirado das séries contemporâneas. Embora Dele & Dela busque ser provocante e carregue uma classificação indicativa alta, tudo é suavizado. O resultado é uma provocação sem tensão, mais protocolar do que expressiva, que pouco acrescenta à narrativa ou à construção dos personagens.

No fim das contas, Dele & Dela é uma série eficiente em manter atenção, mas tímida em ambição artística. Funciona como passatempo, cria tensão, entrega uma catarse final aceitável e sabe explorar o carisma de seus atores, especialmente o de Tessa Thompson. Falha, porém, em deixar qualquer marca mais profunda. Quando os créditos sobem, sobra pouco além da sensação de que tudo foi calculado para o consumo rápido e para a reação imediata.