Aqui vai um filme que começa promissor, mas logo sucumbe aos impulsos que já conhecemos. A câmera parada, o registro contido, observacional, a trilha discreta (nunca temas ou melodias, mas dissonâncias metálicas com reverb e demais sugestões atmosféricas).

Enfim, um filme de festival. Assista a um certo número deles em sequência, e todos se tornam indistinguíveis entre si, prenhes que são desses “vícios do cinema brasileiro independente“.

O termo não é meu, mas do crítico Filipe Furtado: as palavras foram usadas para descrever o primeiro longa da dupla Maju de Paiva e Bernardo Florim, o simpático e esquecível coming of age “Avenida Beira Mar“. Com este “Diário do Fogo“, os diretores parecem dispostos a abrir novas searas para o seu cinema — mas aquele mesmo rótulo ingrato teima em nortear suas escolhas.

Aqui, o coming of age vai para escanteio: nosso foco é Graça (Isabel Teixeira), moradora de uma ocupação consumida pelo fogo num incêndio suspeito. Ela se mete em um imbróglio com um capanga do proprietário —autor do crime, o filme sugere. A protagonista, além disso, vê espíritos, talento partilhado pela sua filha, Duda.

Uma trama que deseja ser drama social, terror sobrenatural e filme de crime pede por uma dose violenta de qualquer coisa — de estilo, de urgência, de personalidade. Mas “Diário do Fogo” opta pelos artifícios que já conhecemos, o que torna a sobreposição de elementos — o contraste entre Graça e sua filha e as cenas envolvendo o perturbado vigia noturno, por exemplo — um tanto quanto destrambelhada. 

No máximo, quando aparece um fantasminha, o filme apela para a câmera na mão. Há, na verdade, uma estranha apatia no modo como “Diário do Fogo” se escora no cinema de gênero. Quando Graça se depara com um fantasma numa cama, ela termina a cena gritando — mas o grito parece uma ação meramente mecânica, supostamente necessária porque a cena demandava alguma pontuação.

Em outro momento, Duda, sozinha em uma casa escura, está diante de uma pia ensanguentada. Corta-se para ela em um corredor, e em seguida,  para um fantasma levantando-se no quarto. Três momentos distintos que deveriam se articular em um crescendo de suspense, mas que, aqui, parecem jogados de qualquer forma.

“Diário do Fogo” é cheio de momentos assim — o que significa que o filme não transita muito bem pelos vários filmes que tenta ser. Fica aquela impressão amorfa de que assistimos a mais um filme de festival, mesmo quando o projeto parece buscar desesperadamente sua singularidade.