A comunidade latina nos EUA luta constantemente por melhores condições de vida. No governo Trump, as políticas adotadas e as declarações do presidente geram preocupações da comunidade. Realizando um aceno a esta realidade, Sobrevivência, novo filme de Ben Affleck, tenta se mostrar relevante e ao mesmo tempo criar um suspense enervante. Entretanto, a condução insípida e um roteiro anêmico expulsa o telespectador de qualquer conexão dramática com a premissa apresentada.
Diante de uma abordagem de responsabilidade moral e desigualdade social contextualizadas em um cenário atual, o longa resgata uma associação direta com Céu e Inferno de Akira Kurosawa e a versão americana Luta de Classes, de Spike Lee. Os três longas têm uma estrutura bastante similar e dilemas análogos, porém a direção de Affleck fornece respostas rasas e calculadas. A indiferença do diretor com o material é nítida na forma como joga diversas problemáticas juntas e não oferece uma organização dentro da história.
Outro pecado de Affleck comete é a tensão insossa. No início, existe um esforço de criar uma angústia pairando a situação, porém, após a primeira reviravolta da trama, o suspense perde a força, se diluindo em um melodrama cafona. A utilização exagerada de várias tomadas aéreas de drones para mostrar planos abertos ajuda a quebrar ainda mais o ritmo da tensão. O único momento que transmite uma certa apreensão é uma montagem paralela que associa uma apresentação de sapateado e uma perseguição pelos sons dos passos.
Além da temática do eleitorado latino em mãos, o filme quer falar sobre o controle das narrativas políticas, intrigas familiares, a elite, campanhas, poder do dinheiro e dilemas morais. Todas inseridas e disputando espaço entre si no roteiro. Indeciso sobre o que aprofundar ou eleger um como o centro, Sobrevivência decide falar sobre tudo de forma rasa para expressar uma falsa complexidade.
Mergulhado nesse impasse moral, o protagonista Mark carece de uma ambiguidade mais sólida. Suas contradições são pouco exploradas e ele transpassa uma antipatia visível. Mesmo que a atuação de Affleck se empenhe em trazer um homem dividido, suas atitudes parecem mais convenientes do que dúbias. É como se o personagem respondesse comandos coordenados, como momentos de explosão e pressão quando precisa e no resto do tempo estacione em uma letargia.
Respondendo a esses mesmos estímulos, os coadjuvantes se entregam à superficialidade do roteiro. Três peças centrais desse longa não atingem o potencial merecido. O assessor de Mark, interpretado por Steve Yeun, representa a frieza da situação e a reputação política, mas se esconde em uma presença tímida. A esposa de Mark de Kerry Washington só serve para mostrar o casamento em ruínas, sem nenhum desenvolvimento genuíno. Por fim, a enigmática Dayle Burton de Gillian Anderson chega como um símbolo aos métodos escusos. A atriz cria toda uma aura estrategista para a personagem, mas o roteiro a reduz como um acessório de luxo no filme.
Toda a execução narrativa responde a intenções que não se concretizam. Quer abordar tantas coisas e ser significativo, mas o roteiro trabalha tudo de forma medíocre e telegrafada. Por exemplo, a voz do sequestrador, elemento fundamental para criar temor, não tem um pingo de imponência. Em toda ligação ele repete as informações e se torna redundante. A covardia do roteiro está em não querer manchar seus personagens demais, buscar trazer a hipocrisia de classes sem adentrar a fundo no tema e abrir o leque de possibilidades e não dar voz a cada uma delas.
Essa construção falha influência diretamente no conflito final. O que era para ser o ponto catártico do longa se torna uma coletânea de vergonha alheia, com direito a uma cena de câmera lenta envolvendo um carrinho descendo uma ribanceira e o resgate de uma criança. Além disso, o epílogo final ensaia um comentário sobre cinismo político e manipulação, mas é tão sem impacto, que mira o constrangimento.
Cheio de intenções e pouca substância, Sobrevivência é uma grande propaganda política. Promete tudo e entrega um resultado aquém, passa uma perfeição que está apenas na imagem e nas ideias. Em alusão a um ditado popular, é como fazer uma omelete sem querer quebrar os ovos. Derivativo, cansativo e bem distante da competência de Affleck, o longa é um teste de sobrevivência para a paciência.














