Em 1986, Brian De Palma já acumulava as alcunhas de “mestre do macabro” e “novo mestre do suspense”, como o pôster clássico de “Dublê de Corpo” anuncia. Ele já havia lançado seus maiores hits: “Carrie”, “Vestida Para Matar” e “Scarface”. Também havia encarado a cota de controvérsias pela violência e sexo presentes nos projetos.

“Dublê de Corpo” é, portanto, o produto lógico dessa fase: a culminação de um cinema que prospera no exagero e de um diretor com plena consciência de ter o poderio necessário para tirar uma com a cara do espectador.

Exceto que De Palma jamais seria cínico ao ponto de realizar um mero pastiche sem força própria. Aí se esconde a chave da sua alquimia: o cineasta chafurda no artifício não por uma simples ironia pueril, mas por reconhecer que essa artificialidade é, sim, poderosa – que ela, enfim, pode nos mover.

REFERÊNCIAS HITCHCOKIANAS

A trama aqui é o de menos. Aliás, o que temos aqui é uma série de motivos hitchcockianos, como se De Palma fosse um jazzista improvisando um solo original a partir de melodias conhecidas. Há dois pontos de partida óbvios. O primeiro é “Um Corpo Que Cai”, apresentado logo na sequência de abertura, a primeira dentre várias cenas de filmes dentro do filme ao longo da projeção. Jake Scully (Gregg Wasson) é um aspirante a ator em uma produção B que é mandado embora quando a claustrofobia intensa se torna um empecilho no set. O sujeito é a epítome do perdedor e Wasson encarna o tipo tão bem que eleva a patetice a patamares quase insuportáveis.

Mas a sorte começa a mudar quando um colega de palco lhe oferece a oportunidade de cuidar da casa de um amigo por algumas semanas. O lugar é uma mistura de antena parabólica gigante com nave espacial com uma vista panorâmica que lhe dá ares de panóptico ou torre de vigilância.

Aqui, a segunda referência hitchcockiana ganha corpo: “Janela Indiscreta”. Só que De Palma leva as perversões do velho mestre a novos patamares de lascividade: quando Jake passa a espiar a vizinha, descobre que a rotina da hora de dormir da moça é praticamente um número de cabaré, com direito a calcinhas de cetim e salto alto.

A fantasia do protagonista palerma é embalada pelos sedutores acordes de Pino Donaggio, numa de suas melhores colaborações com o diretor. O clima de romantismo doloroso ou, caso queira, perdição luxuriosa é embriagador. Exemplo máximo: a sequência em que Jake segue a vizinha misteriosa por Los Angeles. Aliás, note como De Palma se utiliza de “rear projections”, aquelas projeções de fundo do cenário, como as que Hitchcock usa em uma sequência-chave de “Um Corpo Que Cai”.

RENDIÇÃO À FANTASIA

Isso é um pouco antes da primeira de algumas puxadas de tapete que o filme dá no público. Não vale a pena estragar a surpresa para o leitor. Aliás, um espectador incauto pode até dizer que a trama de “Dublê de Corpo” é das mais estapafúrdias.

Essa pessoa não estaria errada, per se. A divisão em duas metades bastante distintas entre si, embora claramente proposital, também pode prejudicar um pouco a totalidade da obra. Mas as intenções de De Palma são claras: trata-se de mais um de seus tratados sobre o poder da imagem, a capacidade de sedução, a força arrebatadora e o perigo de se perder dentro dela.

A mesma questão foi melhor tematizada pelo diretor em “Um Tiro na Noite”, “Olhos de Serpente” e, mais recentemente, em “Guerra Sem Cortes”. Mas “Dublê de Corpo” segue como a perfeita ilustração do equilíbrio tenso entre o artifício e a verdade. Render-se à fantasia é gostoso, mas você pode se perder. Nesse caso, não se preocupe se terminar por não saber mais o que é real e o que é ilusão.