Aviso: Esta crítica contém alguns spoilers.

No passado, era até pejorativo dizer que Brian De Palma era uma imitador de Alfred Hitchcock. Porém, hoje em dia, quando boa parte do cinema virou remixagem, novas versões de coisas que já vimos no passado, o brilhantismo de De Palma ficou mais evidente. Um artista à frente de seu tempo, já nos anos 1970 e 1980 fazendo remixes, sem esquecer, claro, de acrescentar seu toque único e sempre com o desejo de levar gêneros e tropos um passo além do que tinha sido feito com eles no passado.

Tomemos por exemplo seus exercícios de estilo hitchockianos: se Trágica Obsessão (1975) era a sua versão de Um Corpo que Cai (1958), e Dublê de Corpo (1984) o seu Janela Indiscreta (1954), então Vestida para Matar (1980) foi o Psicose de Brian De Palma. Ele quis, aqui, fazer uma nova versão do longa que o impressionou quando jovem, tal como Steven Spielberg e George Lucas estavam realizando com grande sucesso ou como os franceses começaram a fazer com a Nouvelle Vague. E não é como se De Palma fosse incoerente: àquela altura da carreira, ele já tinha feito até remix de si mesmo – ora, A Fúria (1978) não deixava de ser bem próximo a Carrie, A Estranha (1976).

SORRISO DE HITCHCOCK

Voltemos a Vestida para Matar: bem, esse é um daqueles que, ainda hoje, deve desagradar aos espectadores que gostam de uma história bem explicadinha, tintim por tintim. O diretor já demonstra sua homenagem a Psicose – e que não será um narrador confiável – logo na primeira cena: vemos uma bela mulher no chuveiro, tomando banho, enquanto observa seu homem. Ela vai ficando com mais tesão a cada minuto e começa a se tocar enquanto se ensaboa… Até que é atacada dentro do chuveiro.

Só que não: era um sonho. Pegadinha do Mallandro.

Essa cena também dá a tônica do filme: com a estética de filme pornô soft e câmera lenta, explorando a beleza madura da quarentona Angie Dickinson – com a ajuda de uma dublê para os closes mais ousados, o que anos mais tarde inspirou Dublê de Corpo – e ênfase no jogo de câmera e na emoção, Vestida para Matar já deixa claro que o negócio aqui é irreal, o sonho do cinema. Kate, a personagem de Dickinson, essa mulher que está insatisfeita com o casamento, vai depois conduzir uma sequência de uns 10 minutos dentro de um museu, onde ela se aproxima de um sujeito misterioso, com quem vai acabar tendo um encontro sexual.

Que outro filme de suspense gasta 10 minutos em algo que poderia ser contado em 2 ou 3, para o bom do andamento da “trama”? De Palma não parece preso a trama: se você explicar para alguém o que acontece em Vestida para Matar, pode até ficar surpreso com o quanto a história não faz muito sentido do ponto de vista lógico. É o cinema por si mesmo, a orquestração da imagem aliada ao som, que é o grande interesse do cineasta – não à toa que a sequência do museu é praticamente sem diálogos. Hitchcock não gostava de filmes que se resumiam a “fotografias de pessoas falando”, e provavelmente abriria um sorriso ao ver essa sequência – Vestida para Matar foi lançado no ano em que o Mestre do Suspense faleceu.

GIALLO E SUSPENSE HOLLYWOODIANO

Além de Psicose, outra inspiração para o filme foi a vida pessoal do próprio De Palma: quando jovem, ele montou um aparato com uma câmera e o instalou na frente de um prédio. Tudo para tentar conseguir provas de que seu pai estava traindo a sua mãe. O personagemdo filho de Kate no filme, o nerd interpretado por Keith Gordon, é um retrato do próprio diretor, o sujeito que usa uma câmera para acessar sentimentos sombrios e que entende muito de cinema e traquitanas técnicas, nem tanto de pessoas ou de profundidade psicológica.

Mas essas coisas aqui não fazem falta porque a construção cinematográfica e a emoção que ela evoca nos mantém assistindo. Igual a Psicose, na marca de 40 minutos, “Vestida Para Matar” troca de protagonista: entra em cena a garota de programa vivida por Nancy Allen, além do psicólogo interpretado por Michael Caine começar a aparecer mais. Embora essa segunda metade não tenha nenhuma cena que se compare à do museu, tudo vai culminar num clímax insano e delicioso – para quem curte esse tipo de coisa, claro.

Vestida para Matar não deixa de ser um filme curioso, um híbrido de suspense hollywoodiano bem produzido com um sabor e influência definitivamente derivados do giallo, o thriller italiano que caprichava no sangue e nas cenas sensuais. E é um filme com certeza psicanalítico – com direito até a uma recriação da explicação do psiquiatra no final de Psicose, mas temperada por um humor cínico. No entanto, há também uma clara desconfiança da psicanálise, que fica clara durante a história, com as suas revelações.

A PERVERSÃO

O aspecto de Vestida Para Matar que não envelheceu bem, claro, é a conexão que o roteiro faz entre transexualidade e transtorno mental. Mas todo filme deve ser analisado no seu contexto: naquela época, o mundo transexual era um mistério que ainda estava começando a ser exposto no mainstream – De Palma insere no longa um trecho de um documentário sobre Nancy Hunt, um caso real de transição de gênero que ficou célebre alguns anos antes do lançamento de Vestida para Matar.

Se o filme não trata muito bem essa questão, em outros trechos ele parece antecipar o pânico em torno da Aids que em breve eclodiria no mundo – Kate, após transar com o desconhecido, descobre que pode ter contraído uma doença venérea, e assim como na maioria dos slashers, o sexo e a morte andam de mãos dadas aqui. É na eterna luta entre desejo e repressão que o diretor situa o drama e o terror que acomete seus personagens.

Ainda assim, ao final podemos voltar ao próprio Brian De Palma, que espionou o pai com uma câmera, tentando gravar algo ilícito e proibido: se no filme os homens em geral não são mostrados de forma positiva – até o motorista de taxi que transporta Kate e o desconhecido fica espionando o que não deve – e as mulheres aparecem lindas, muitas vezes antes de serem mortas ou de escaparem da morte, fica claro que o maior pervertido é o próprio criador da obra. Vestida para Matar expõe o voyeurismo masculino, o subconsciente feminino e faz do assassinato uma forma de arte. Acabou influenciando vários outros filmes, desde aqueles que passavam no antigo Cine Privé até produções de sucesso das décadas seguintes.

E acaba com um sonho – um pesadelo, no caso, assim como Carrie. Olha aí outro remix de si mesmo.