Enquanto o Céu Não me Espera, longa-metragem de estreia da diretora amazonense Christiane Garcia é um filme que não faz muitas concessões sobre a vida ribeirinha. Existe um movimento contracorrente, com a cineasta descontruindo o olhar poético do que se imagina desta realidade amazônica para dar vazão as diferentes dores e lutas emocionais que o trabalhador rural vivência.

O trabalho que foi o grande vencedor do Festival de Lisboa (FESTin Lisboa 2025), ao faturar três prêmios (filme, ator e atriz), acompanha a trajetória do agricultor amazônida e plantador de malva, Vicente (o sempre ótimo Irandhir Santos) que ao lado da esposa Rita (Priscila Vilela) e dos três filhos enfrentam as cheias dos rios, enquanto sobrevivem aos problemas econômicos e sociais da região.

Em Enquanto o Céu Não me Espera, Garcia utiliza o rio não apenas como um personagem vivo, mas também como uma força da natureza que serve para articular as temáticas amazônidas importantes dentro da sua história: a memória afetiva, o território líquido e o sentimento de pertencimento, todos eles relevando as contradições de um velho mundo – formados por valores e ensinamentos herdados – com o novo, este em colapso pelas mudanças climáticas. É a natureza reagindo à violência imposta a ela por aqueles que a gente não vê, mas sabemos quem são.

Gosto da forma que a narrativa descontrói a romantização a vida ribeirinha ao mostrar que por trás das paisagens amazônicas, a existência de uma vida árdua de sobrevivência. O roteiro da diretora literalmente mergulha na ancestralidade dos povos amazônicos que se encontra submersa para emergir olhares sobre uma sociedade erguida por valores masculinizados que produzem emoções violentas à imago feminina, o que dá um caráter feminino a produção já que Rita é a que mais sente a degradação física e emocional naquela situação, diante de um marido orgulhoso que não consegue se desprender dos valores enraizados.

A própria questão das cheias e enchentes trazem em larga escala os conflitos e dilemas emocionais do casal, tratando da situação de cada um deles com a intensidade, urgência e dramaticidade requeridas.

Enquanto o Céu Não me Espera expõe o cotidiano, cenário e personagens em um silêncio sepulcral onde as perguntas se tornam reticentes e as respostas nem sempre vem. A câmera de Christiane traduz isso desde as primeiras imagens: o reflexo da água traz a poesia amazônica ao mesmo tempo o incômodo que ela carrega pelo peso da sua imensidão

A fotografia de Ralf Tambke que começa com um widescreen panorâmico aberto mostrando a família desfrutando da natureza a sua volta, aos poucos assume uma composição 4:3 no enquadramento com planos de janela fechados para transmitirem um sentimento claustrofóbico devido a enchente do rio que consume (e alaga) os espaços já pequenos da pequena moradia, transformando seus personagens quase como anfíbios no cenário. O desenho de som de Juliana Baratieri e Guido Pera ajuda a intensificar essa sensação de angústia interna dos personagens com os barulhos de água.

Inclusive, Christiane inova ao fazer um belíssimo plano-sequência anfíbio de força melancólica em uma cena dramática emocionalmente dolorosa, mas que sintetiza a proposta das escolhas de Vicente, um agricultor cada vez mais atormentado pelas suas decisões em ter que lidar com as forças incontroláveis da natureza e pelas pressões sociais que o cercam, lutando internamente entre resistir e desistir.

Por mais que valorize esse registro inóspito que aflige aqueles personagens feito pela diretora, nada disso seria relevante sem as atuações grandiosas de Irandhir Santos e Priscila Vilela. O ator personifica muito bem a figura inicialmente comedida de Vicente para, aos poucos, transformá-lo em um poço de alienação à medida que se afunda nas emoções, sendo responsável direto pela desestruturação do núcleo familiar. Já a atriz valoriza o sentimento de desolação de Rita, cujo medo pelos filhos a faz ficar cada vez mais isolada no tempo e no espaço daquela realidade. É uma atuação intensa e que cativa pela forma avassaladora que Priscila incorpora a personagem

É claro que o filme peca em alguns pontos. Sinto que há uma ausência de demarcações mais claras em oxigenar esta realidade não apenas pela dor e pelo sofrimento, o que poderia fazer o drama respirar de fato além dos incômodos explorados. A impressão é que muitas vezes ele abraça o sofrimento puro, sem procurá-lo investigá-lo além dessa esfera de resignação.

Ao retratar uma profissão amazônida das mais difíceis, os juteiros da malva, Enquanto o Céu Não me Espera revela a dureza da vida ribeirinha filmada quase como uma paisagem apocalíptica. Não é à toa, que um dos personagens verbaliza para Vicente: as pessoas sempre exaltam as belezas da floresta, mas nunca se importam com as pessoas dali.

Christiane faz sua versão amazônica de Vidas Secas, trocando a seca nordestina pelas cheias do Rio Negro. Tudo que está no filme de Nelson Pereira Santos está aqui, no caso a miséria, a invisibilidade, o sofrimento, a solidão e o abandono, trocando apenas as particularidades geográficas. Um filme poético nas imagens e duro na narrativa e que serve como reflexo para mostrar que a realidade amazônica é mesmo absurda e está mais perto da gente do que supomos.